quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Melhores Discos de 2008 (1001 Colóquios)

O percurso de 2008 é eminentemente noturno. Um acorde é emitido na hora zero numa praça onde um trovador solitário dedilha o seu violão. Ele acaba de chegar de um período de isolamento num local muito distante do caos urbano. A cidade parece ainda mais selvagem do que a floresta e a beleza de seus plácidos e desolados lamentos serve para purificar o cinismo da metrópole. Na estojo do instrumento, deixado num canto, algum transeunte lê a inscrição: Justin Vernon- For Emma, Forever Ago.

Dobrando a esquina, surge outro bardo, uma espécie de Dylan (guardadas as devidas proporções) gestado numa garagem. Ele entoa cânticos viscerais e tem como espectadores meia dúzia de gato pingados. O sujeito atende pelo nome de Hamilton Leithauser, vocalista da banda The Walkmen. A madrugada se arrasta quando o som de um órgão ecoa pela avenida vazia e revela “In the New Year”, uma das mais belas e contundentes músicas do ano. É o ápice de "You and Me", um álbum cru, minimalista na execução, cheio de levadas marciais e percussivas, mas não menos lírico.

Não muito longe dali, observa-se um fila em frente a um pequeno edifício onde antes funcionou um templo no estilo “Jesus Saves”. No interior o clima é hedonista. O público, em comunhão, celebra e grita no auge do êxtase, acompanhando os vocais de Antony: “... Because I Feel, Because I Feel... Blind!!!”. Em 2008, o carismático crooner, abandonou as suas típicas tendências melancólicas e ingressou com impressionante naturalidade nas fileiras de uma espécie de bem-sucedida retomada da disco music combinada com outros beats dançantes, house e jazz incluídos, capitaneada pelo projeto Hercules and Love Affair de Andrew Butler.

O ataque dos sintetizadores segue no andar de cima. O doce refrão de “Ready for the Floor” é entoado em uníssono. Apenas mais uma das melódicas e contagiantes, embora nada vulgares, canções do Hot Chip, que com o álbum “Made in the Dark” oferece mais um daqueles blends de tendências dançantes que eles são capazes de produzir com muita propriedade.

Retornando para a pista principal, um incidente, posteriormente saudado por todos, acontece. O DJ, num aparente surto de loucura, abandona seu posto e, resoluto, vai para a pista no intuito puro e simples de cair na gandaia, não antes sem deixar no repeat o álbum “In Ghost Colours” do australiano Cut Copy (o vice-campeão de 2008 no rank de 1001 Colóquios). Nada mais lógico e racional, já que a sucessão de hits, calcados em vertentes dançantes as mais diversas, oitentistas ou não, aí incluídos o synth-pop e mesmo a dance music mais bagaceira reprocessada, a ponto de tornar-se sofisticada, é viciante. No caldeirão borbulha um rica mistura de timbres variados de teclados e sintetizadores, na qual cabem até saxofones, vocoders e guitarras distorcidas. Uma coleção de canções luminosas. Lights and music. A expressão é certeira. Resume tudo.

Um luz branca ofuscante disparada diretamente nos olhos de um dos fanfarrões da pista é a senha para transportá-lo para uma realidade paralela envolta numa névoa espessa, o que dificulta a percepção de que está numa mata. Ele ouve inicialmente o barulho de um riacho correndo tranquilo, depois o cântico de pássaros e finalmente uma flauta árcade bem ao fundo. Seguindo o som emitido pelo instrumento, atinge um descampado onde está sendo promovido algo a que nunca tinha assitido: uma ensolarada jam session pastoral onde cabem sons típicos de bandas como Byrds, The Zombies e CSNY. As músicas soam autorais e cheias de personalidade, paradoxalmente. De repente, o vocalista entoa uma canção a capela, anunciada como "Oliver James", que combina apenas o silêncio entre as estrofes com os trinados de sua voz. A alucinação passa e no cérebro do fanfarrão o mantra “Fleet Foxes” é repetido à exaustão.