Hordas heterogêneas lotavam o bondinho para assisitir ao show de Caetano no Morro da Urca. Havia os representantes do momento seminal de sua carreira, desfilando os seus visuais Anos Setenta, na modalidade "típica" ou "atualizada". Outros, vestindo inadequados paletós, provavelmente rendiam homenagens à infeliz fase Fina Estampa. Até mesmo os aficionados pela vertente brega caetânica estavam lá, provavelmente indóceis para ouvir aquela versão da música do Peninha. Enquanto isso, os apreciadores e conhecedores apenas de sua faceta radiofônica das "light" FM's esperavam por algo na linha "Você é Linda" . Além disso, no anfiteatro conviviam pretensas encarnações de meninos do rio e tigresas com turistas estrangeiros perdidos e senhoras na faixa dos 70.
Quanto a mim, já estaria contente em ver o Caetano musicalmente rejuvenescido que se ouve no sensacional "Cê", e presenciá-lo executando alguns dos clássicos do imprescindível "Transa". Será que seria pedir muito que ele tocasse a cartática "Triste Bahia" feita sobre poema de Gregório de Matos? Foi. Mas fiquei contente em ouvir "Nine out of Ten" e a soberba "You Don't Know Me" com suas citações, especialmente à "Reza", de Edu Lobo. Laia Ladana Sabatana Ave Maria!!. E o que falar de "Como Dois e Dois", que levou a platéia ao arrebatamento? E a incrível última música, uma "cover" de Jorge Ben, que fechando apoteoticamente o espetáculo, oferece uma samba-jazz-rock furioso e inebriante?
No mais, Caetano desfila praticamente todas as músicas de seu último álbum, com exceção (graças a Deus!) daquela patética em que emula um português em seu "estou-me a vir" incessante. O que vemos no palco é um artista renovado, extremamente estimulado com sua música, talvez pela revitalizadora injeção de hormônios em ebulição de "Cê". O agora "rocker" Caetano é acompanhado por uma excelente banda básica. Guitarra, baixo, bateria e um eventual teclado "Rhodes", tocados com muita competência, às vezes com sutileza, às vezes com fúria. Isso tudo aliado à habitual excelência de canto e de interpretação. Gostaria de ter ouvido apenas um som ainda mais alto, com ainda mais microfonias e "digressões guitarrísticas" em músicas enérgicas como "Rocks" e "Odeio". Mas a verdade é a seguinte: o ano musical começou em altíssimo estilo!