terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Carioquismo Crítico

É fato. Não há como negar. Nossa cidade, Rio de Janeiro, chegou ou está perto do fundo do poço. As ondas de violência são intermitentes. As mais diversas máfias (tráfico de drogas, caça-níqueis, bingos, pirataria, contrabando) atuam por aqui com a complacência (e/ou participação?- pergunta cândida) do Poder Público, assaltado por anos de desgovernos que culminaram com o casalzinho recentemente defenestrado, expurgado, extirpado, expelido, vomitado. Parelalamente, contaminados por esse ambiente de desrespeito ao Estado de Direito, setores da população, dispersos geograficamente e em diversas classes sociais, julgam-se autorizados a praticar atos de desrespeito às leis, às instituições e ao próximo, sendo exemplo significativo disso a selva que é o trânsito da cidade atualmente.
É verdade também, como tenho constatado, que muitos moradores de outros muncípios, não conseguem disfarçar uma certa satisfação com todos os tristes problemas enfrentados pelos cariocas. As piadinhas de mau gosto estão sempre prontas na ponta da língua. Tal comportamento é de uma insensibilidade barata, que mal disfarça a vontade de "ver o circo pegar fogo" por muito mais tempo... Esquecem que o Rio é o referencial do Brasil em qualquer ponto do planeta. Para o bem ou para o mal. Fatos negativos que envolvem a cidade atingem mortalmente o país.
O Rio, imerso em sua beleza natural ímpar, é uma cidade tão diferenciada, que mesmo a sua decadência é peculiar. Qual cidade tão gravemente abalada pela violência é capaz, apesar de tudo, de abrigar as grandes manifestações artísiticas e culturais (exposições, festivais de música, teatro e cinema) a que temos acesso? Por que tantos intelectuais, pensadores, músicos e poetas continuam residindo aqui, como lembrou Arnaldo Bloch em sua última coluna? Por que o Rio sediará uma competição internacional do porte dos Jogos Panamericanos? Por que vemos tantos carros com placas de cidades como São Paulo e Belo Horizonte circulando por aqui nos feriados?
Portanto, vamos encarar os fatos, sim, e colocar o "dedo na ferida". O momento é tenebroso e alguma coisa tem que ser feita (e assim será). Porém, por favor, bufões de plantão e urubus que se aproximam depois do desastre pra conseguir um naco de carniça, reflitam um pouco e aprendam: ao tripudiar o Rio de Janeiro estarão autodepreciando-se.

Nenhum comentário: