quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Chico Buarque no Canecão

Depois da tentativa frustrada de comprar ingressos para o show anterior de Chico Buarque, "As Cidades", de 1998, tudo parecia caminhar para o mesmo desfecho no espetáculo "Carioca". Culpa do arcaico e famigerado Canecão, pródigo em dificultar ao máximo a venda de ingressos para quem não paga inteira e onde os cambistas parecem sentir-se em casa ...
Por sorte, datas extras foram marcadas e finalmente pude assisitir a uma das cada vez mais raras e disputadas apresentações de um dos mais importantes artistas da música brasileira. Não consegui achar qualquer defeito no show. Esse é pra guardar pra sempre na memória! O espetáculo é calcado nas músicas do disco "Carioca" (todas são apresentadas), e então confirma-se o fato de que estas ficam mais atraentes a cada nova audição. São canções que, em alguns casos, podem não gerar uma empatia imediata com o ouvinte. Porém, são mais complexas harmonicamente, possuindo nuances, sutilezas, que vão sendo desveladas aos poucos, mostrando, ao final do processo de ambientação, toda sua força. Ao vivo, são belíssimas. "Imagina", então, composta por Tom Jobim, e cantada em dueto com Bia Paes Leme, é pra deixar qualquer um flutuando. Destacam-se também o moderno repente-rap "Ode aos Ratos", além de "Subúrbio".
Um capítulo à parte é a banda de apoio. Um verdadeiro "dream team" de músicos... E ainda por cima entrosados pelos muitos shows da turnê. Covardia... Chico soube fazer-se acompanhar muito bem. Lado a lado, vemos na bateria o mítico Wilson das Neves, que ainda canta desenvolto com Chico a parceria "Grande Hotel", Jorge Helder (autor da intrincada e bela "Bolero Blues"), no baixo, Luiz Cláudio Ramos, no violão e guitarra, Chico Batera, na explosiva percussão... Sem falar do ótimo cantor que Chico é. Longe de virtuosismos, porém extremamente seguro em suas interpretações.
Entremeadas com a nova produção, somos brindados com clássicos como "O Futebol", "As Vitrines", "Futuros Amantes", "Eu te Amo", "Quem te viu, quem te vê" e a maravilhosa "João e Maria", de Chico e Sivuca, oriunda de "O Grande Circo Místico". Estas duas últimas dão um fecho magistral ao show, com a platéia toda de pé, extasiada e rendida ao talento de um Chico nitidamente feliz, que durante todo tempo exibe um carisma magnético sem precisar ou querer fazer qualquer esforço. Depois desse fecho, só resta sair, com a alma revitalizada, tendo ao fundo o "Trenzinho do Caipira", composta por outro gênio, Heitor Villa-Lobos...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Grandes Discos de 2006 ouvidos apenas em 2007 (Parte II)

"Night Ripper"- Girl Talk.
Colagem eletrônica, nos moldes das realizadas pelo "2 Many Dj's". Contém "samples" de uma infinidade de músicas, sucessos ou nem tanto, de artistas díspares, como "Pixies", "Steely Dan", "The Verve" e "Oasis". É divertido tentar reconhecer essas referências, embora depois de algum tempo a brincadeira acabe ficando cansativa. Por isso, não se pode dizer que seja propriamente um grande álbum.
"Boys and Girls in America"- The Hold Steady.
Guitarra, baixo e bateria vigorosos. Um ou outro eventual teclado, como pano de fundo. Nada de experimentalismos. Rock básico e eficiente, sem firulas e de sotaque sulista, embora a banda seja de Nova York. O brilhante vocalista, Craig Finn, parece ter a voz calejada por litros de whisky. Em alguns momentos lembra "Black Crowes" e "Kings of Leon", além dos pais do gênero, "Lynyrd Skynyrd" e "Allman Brothers". Isso sem falar de Bruce Springsteen...
"Writer's Block"- Peter Bjorn and John.
Excelente álbum da banda sueca. Sem dúvida, um dos melhores de 2006. Ambientação "indie" em que dissonâncias de guitarra convivem com perfeição com melodias assimiláveis e harmonias envolventes. Destaque para "Objects of my affection" (parece um "Wedding Present" revivido), "Young Folks" (assobio e seção rítmica contagiantes) e "Start to Melt".
"Silent Shout"- The Knife.
Duo eletrônico sueco, formado por irmão e irmã, bastante influenciado, como não poderia deixar de ser, por "Kraftwerk", sem deixar de lado elementos do "synth pop", estilo anos 80, o que faz com que o disco seja, ao mesmo tempo, complexo e acessível, sofisticado e descomplicado . A faixa de abertura homônima é sensacional: sintetizadores evoluem com um grave contagioso que pontua toda a música. Foi eleito álbum do ano pelo respeitado site "Pitchfork".

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Grandes discos de 2006 ouvidos apenas em 2007 (Parte I)

"The Crane Wife"- The Decemberists.
Nítidas influências de folk e rock progressivo. Em algumas faixas soa como o R.E.M dos primórdios, em outras parece uma banda progressiva típica, como Jethro Tull. Por outro lado, a vibrante música "The Perfect Crime #2" é um cruzamento da "new wave", estilo "Talking Heads", com a faceta mais "funky" dos "Stones".

"Ballad of the Broken Seas".
União inusitada entre Mark Lanegan (ex-Screaming Trees e colaborador bissexto do Queens of the Stone Age) e Isobel Campbell (do Belle and Sebastian). O álbum aposta, com sucesso, no contraste entre a rispidez de Lanegan e a doçura de Isobel. Climas sombrios combinados com momentos de enlevo.

"Brightblack Morning Light"- Idem. Quase que totalmente instrumental e tributário à Black Music, notadamente à chamada "Blaxploitation". Elementos eletrônicos combinados com instrumentos de sopro e percussão. As músicas andam sempre lentas e viajantes, criando um ambiente lisérgico.

"We are the Pipettes"- The Pipettes.
A palavra chave aqui é entretenimento. As três inglesas promovem uma divertida e despretensiosa reformatação do pop de grupos vocais femininos dos anos 60. Excelente produção em que os vocais bem coordenados e as orquestrações envolventes ganham destaque. Se você quer algo na linha Spice Girls, Pussycat Dolls ou congêneres, passe longe!

"The Trials of Van Occupanther"- Midlake.
Mais um da linhagem folk. Influenciado por todos os grandes nomes dessa vertente musical. A brilhante faixa de abertura, "Roscoe", lembra muito o Fleetwood Mac dos bons tempos, fase "Rumours". Muitos vocais harmônicos, flautas, violões e pianos.

"Everything All the Time"- Band of Horses.
Banda flagrantemente calcada na sonoridade do gênio Neil Young (até o falsete está presente). Mais uma prova de que este, sem dúvida, é um dos artistas mais influentes da história do rock As guitarras sempre interagem e duelam, criando viagens ao mesmo tempo harmônicas e furiosas. Em outras passagens o clima é acústico. Encontra paralelo com "My Morning Jacket".

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Mutantes no Vivo Rio

As ações são comandadas por Sérgio Dias. Ele é o frontman. É o protagonista, o porta-voz e gestor da banda, que ainda esbanja talento tocando guitarra com a conhecida competência.
Arnaldo Baptista está claramente fora de sintonia. Em algumas canções quase é atropelado pela banda. Tem os olhos sempre atentos ao monitor instalado à sua frente. Estaria lendo as letras? As silibrinas do tempo definitivamente não o favoreceram. Mas lá está o iluminado criador das dezenas de músicas geniais espalhadas pelos discos dos Mutantes. Isso sem falar das canções de seu álbum solo, "Lóki?", um dos mais fundamentais registros do rock nacional.
Zélia Duncan contenta-se em secundar os irmãos. Coloca-se num reverente segundo plano. Está discreta e longe de pretender emular uma nova Rita Lee. Dinho, o baterista, faz a sua parte sem muito brilho.
Além deles, o palco está povoado de outros músicos contratados. Apesar da competência de todos, tal fato contribui para descarecterizar a banda. E essa descarecterização, agravada pela ausência de Rita Lee e de Liminha, e pela má forma de Arnaldo e Dinho, é o ponto negativo desse retorno. Assim, em determinados momentos o show parece um "auto-tributo". São os Mutantes homenageando a grande banda do passado, os Mutantes, ou seja, eles mesmos. A grosso modo, por vezes surge um climão de show homenagem, no estilo do que o Multishow produziu para Raul Seixas.
Porém, apesar de tudo, como admirador imparcial dos Mutantes, devo reconhecer que os aspectos positivos suplantam os negativos. A verdade é que show foi muito bom! Paradoxalmente, considerando o que disse antes, admito também que a banda de apoio oferece um excelente suporte. As músicas são executadas com brilhantismo e fidelidade, respeitando a sonoridade do grupo. Em algumas passagens, como em "Dia 36" e "Ave Lúcifer" a psicodelia está lá, restabelecida com exatidão. E teve muito mais, como as memoráveis execuções do proto-hardcore "A Hora e a Vez do Cabelo Nascer", das plácidas "Fuga n. 2" e "Le Premier Bonheur du Jour" e da bem-humorada "El Justiciero", em que os "comparsas" Chávez e Lula entram na roda de ironias. Enfim, o manancial de inúmeros clássicos, aí incluídos "Ando Meio Desligado" (cantada em português por imposição da platéia), "Baby", "Panis et Circensis", "Balada do Louco", entre outros, é despejado sobre o público que empolgado, pede em uníssono, mas em vão, por mais alguns minutos de espetáculo.