quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Mutantes no Vivo Rio

As ações são comandadas por Sérgio Dias. Ele é o frontman. É o protagonista, o porta-voz e gestor da banda, que ainda esbanja talento tocando guitarra com a conhecida competência.
Arnaldo Baptista está claramente fora de sintonia. Em algumas canções quase é atropelado pela banda. Tem os olhos sempre atentos ao monitor instalado à sua frente. Estaria lendo as letras? As silibrinas do tempo definitivamente não o favoreceram. Mas lá está o iluminado criador das dezenas de músicas geniais espalhadas pelos discos dos Mutantes. Isso sem falar das canções de seu álbum solo, "Lóki?", um dos mais fundamentais registros do rock nacional.
Zélia Duncan contenta-se em secundar os irmãos. Coloca-se num reverente segundo plano. Está discreta e longe de pretender emular uma nova Rita Lee. Dinho, o baterista, faz a sua parte sem muito brilho.
Além deles, o palco está povoado de outros músicos contratados. Apesar da competência de todos, tal fato contribui para descarecterizar a banda. E essa descarecterização, agravada pela ausência de Rita Lee e de Liminha, e pela má forma de Arnaldo e Dinho, é o ponto negativo desse retorno. Assim, em determinados momentos o show parece um "auto-tributo". São os Mutantes homenageando a grande banda do passado, os Mutantes, ou seja, eles mesmos. A grosso modo, por vezes surge um climão de show homenagem, no estilo do que o Multishow produziu para Raul Seixas.
Porém, apesar de tudo, como admirador imparcial dos Mutantes, devo reconhecer que os aspectos positivos suplantam os negativos. A verdade é que show foi muito bom! Paradoxalmente, considerando o que disse antes, admito também que a banda de apoio oferece um excelente suporte. As músicas são executadas com brilhantismo e fidelidade, respeitando a sonoridade do grupo. Em algumas passagens, como em "Dia 36" e "Ave Lúcifer" a psicodelia está lá, restabelecida com exatidão. E teve muito mais, como as memoráveis execuções do proto-hardcore "A Hora e a Vez do Cabelo Nascer", das plácidas "Fuga n. 2" e "Le Premier Bonheur du Jour" e da bem-humorada "El Justiciero", em que os "comparsas" Chávez e Lula entram na roda de ironias. Enfim, o manancial de inúmeros clássicos, aí incluídos "Ando Meio Desligado" (cantada em português por imposição da platéia), "Baby", "Panis et Circensis", "Balada do Louco", entre outros, é despejado sobre o público que empolgado, pede em uníssono, mas em vão, por mais alguns minutos de espetáculo.

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