Foi apenas na Bienal do Rio de 2005 que deparei com a obra de Lourenço Mutarelli, apesar das muitas referências anteriores elogiosas ao seu trabalho. Entrei no stand de quadrinhos sem pretensão alguma, sem procurar por nada em especial, já que o meu ponto de contato com esse universo desaparecera no estertores da adolescência, quando deixei de colecionar as seis publicações da Marvel de que gostava (interessados em adquiri-las, por favor, manifestem-se). Porém, após folhear algumas revistas e me impressionar com o universo "sujo" e marginal de Muta, que me fez lembrar o genial (e não menos estranho) Robert Crumb, acabei sendo fisgado mesmo pelo nome daquele livrinho: "O Cheiro do Ralo". Não hesitei. Comprei de imediato. A leitura foi rápida. Narrativa direta, baseada em diálogos, quase uma história em quadrinhos sem quadrinhos, quase um roteiro pronto para ser filmado. Um protagonista misantropo e repugnante, homônimo do autor, compraz-se em humilhar pessoas que, em busca de um trocado, procuram-no para vender objetos, dos mais prosaicos aos mais esdrúxulos. Um anti-herói perseguido pelo cheiro fétido proveniente de seu banheiro e apaixonado por uma... Bunda. O universo eminentemente urbano e outsider, o submundo, a metáfora escancarada do ralo, a abordagem do lado podre da vida e o humor negro subjacente acabam, paradoxalmente, seduzindo o leitor de imediato e fazendo daquela leitura um momento marcante.
Mais ou menos na mesma época, era lançado nos cinemas "Nina", primeiro longa-metragem de Heitor Dália, cineasta pernambucano radicado em São Paulo. O filme traz desenhos fantásticos de Mutarelli, que enriquecem o jogo de contraposições real-imaginário proposto na película, servindo de precioso recurso estético/narrativo. A parceria prosperou e o passo seguinte foi a adaptação para as telas, propulsionada pelo ator e produtor executivo Selton Mello, daquela publicação de nome nada comercial (a captação de recursos sofreu restrições por causa disso). E assim, sem dúvida, o marasmo reinante em nossas telas foi quebrado com a chegada do "Cheiro do Ralo" aos cinemas. Mérito de um consórcio de artistas que não tratam sua arte como mera mercadoria gestada segundo os cânones de estratégias mercadológicas baratas e assumem o risco de propor reflexões relevantes em suas obras, sejam sobre estética ou conteúdo.
A partir do primeiro fotograma, sentimos o desagradável odor, assim como ele é percebido assim que abrimos o livro. Lá está o grotesco Lourenço (embora menos virulento do que achei quando li o livro... enfim, subjetivismos) numa interpretação perfeita de um Selton Mello com sotaque e ares de Zé Dirceu (desculpe, mas nesse ponto a associação entre essa emérita figura da nossa República e o tema "merda" é inevitável). Aliás, o que é aquele seu choro compulsivo no momento enternecedor do encontro com a bunda? Inacreditável...
O elenco de apoio também se destaca, encarnando os tipos urbanos decadentes que freqüentam a loja do protagonista, entre eles a viciada interpretada por uma excelente Silvia Lourenço (de "Contra Todos"). Atenção ao trabalho dela!!! Até Muta desempenha com propriedade o papel de segurança! O filme padece, no entanto, de um mesmo defeito que acomete o livro, isto é, uma circularidade, uma repetição excessiva da situação "Lourenço recebe um cliente e o humilha". No fundo, nada que comprometa. Afinal, o filme, repetindo o que proprociona o livro, constrói com exatidão o perfil de um escroque, fetichista contumaz e coisificador ordinário. Mais atual impossível. O cheiro do ralo está entre e nós e anda se espalhando...
