quarta-feira, 28 de março de 2007

O Cheiro do Ralo

Foi apenas na Bienal do Rio de 2005 que deparei com a obra de Lourenço Mutarelli, apesar das muitas referências anteriores elogiosas ao seu trabalho. Entrei no stand de quadrinhos sem pretensão alguma, sem procurar por nada em especial, já que o meu ponto de contato com esse universo desaparecera no estertores da adolescência, quando deixei de colecionar as seis publicações da Marvel de que gostava (interessados em adquiri-las, por favor, manifestem-se). Porém, após folhear algumas revistas e me impressionar com o universo "sujo" e marginal de Muta, que me fez lembrar o genial (e não menos estranho) Robert Crumb, acabei sendo fisgado mesmo pelo nome daquele livrinho: "O Cheiro do Ralo". Não hesitei. Comprei de imediato. A leitura foi rápida. Narrativa direta, baseada em diálogos, quase uma história em quadrinhos sem quadrinhos, quase um roteiro pronto para ser filmado. Um protagonista misantropo e repugnante, homônimo do autor, compraz-se em humilhar pessoas que, em busca de um trocado, procuram-no para vender objetos, dos mais prosaicos aos mais esdrúxulos. Um anti-herói perseguido pelo cheiro fétido proveniente de seu banheiro e apaixonado por uma... Bunda. O universo eminentemente urbano e outsider, o submundo, a metáfora escancarada do ralo, a abordagem do lado podre da vida e o humor negro subjacente acabam, paradoxalmente, seduzindo o leitor de imediato e fazendo daquela leitura um momento marcante.
Mais ou menos na mesma época, era lançado nos cinemas "Nina", primeiro longa-metragem de Heitor Dália, cineasta pernambucano radicado em São Paulo. O filme traz desenhos fantásticos de Mutarelli, que enriquecem o jogo de contraposições real-imaginário proposto na película, servindo de precioso recurso estético/narrativo. A parceria prosperou e o passo seguinte foi a adaptação para as telas, propulsionada pelo ator e produtor executivo Selton Mello, daquela publicação de nome nada comercial (a captação de recursos sofreu restrições por causa disso). E assim, sem dúvida, o marasmo reinante em nossas telas foi quebrado com a chegada do "Cheiro do Ralo" aos cinemas. Mérito de um consórcio de artistas que não tratam sua arte como mera mercadoria gestada segundo os cânones de estratégias mercadológicas baratas e assumem o risco de propor reflexões relevantes em suas obras, sejam sobre estética ou conteúdo.
A partir do primeiro fotograma, sentimos o desagradável odor, assim como ele é percebido assim que abrimos o livro. Lá está o grotesco Lourenço (embora menos virulento do que achei quando li o livro... enfim, subjetivismos) numa interpretação perfeita de um Selton Mello com sotaque e ares de Zé Dirceu (desculpe, mas nesse ponto a associação entre essa emérita figura da nossa República e o tema "merda" é inevitável). Aliás, o que é aquele seu choro compulsivo no momento enternecedor do encontro com a bunda? Inacreditável...
O elenco de apoio também se destaca, encarnando os tipos urbanos decadentes que freqüentam a loja do protagonista, entre eles a viciada interpretada por uma excelente Silvia Lourenço (de "Contra Todos"). Atenção ao trabalho dela!!! Até Muta desempenha com propriedade o papel de segurança! O filme padece, no entanto, de um mesmo defeito que acomete o livro, isto é, uma circularidade, uma repetição excessiva da situação "Lourenço recebe um cliente e o humilha". No fundo, nada que comprometa. Afinal, o filme, repetindo o que proprociona o livro, constrói com exatidão o perfil de um escroque, fetichista contumaz e coisificador ordinário. Mais atual impossível. O cheiro do ralo está entre e nós e anda se espalhando...

quinta-feira, 15 de março de 2007

Borat

O filme é muito mais do que uma comédia que objetiva arrancar risos desenfreados dos espectadores. É verdade que há momentos em que a platéia se descontrola de tanto rir em situações de humor puramente grosseiro, como na grotesca, certamente escatológica, cena em que Borat, o aloprado repórter vindo do Cazaquistão, e seu fiel escudeiro-produtor atracam-se nus num quarto de hotel. Há também um apelo para o absurdo: tenha-se em mente o Dom Quixote e o Sancho Pança "gauches" e pós-modernos, secundados por um urso pardo, "cavalgando" um carro decrépito pelas estradas da América, abusando de anarquia e iconoclastia.
No entanto, o que realmente mais me impressionou e instigou foi o artifício utilizado para através da "parcela ficção" corporificada na comédia (personagens fictícios, situações pré-concebidas para gerar humor) serem revelados "flashs" do real sonho americano - que bem poderia ser um pesadelo - e do verdadeiro "american way of life". Daí porque pode também ser considerado um eficiente documentário. Assim, por exemplo, o FICTÍCIO jornalista anti-semita, sexista, racista e homófobo, habilmente extrai de alguns de seus entrevistados, que evidentemente acreditavam que seus lamentáveis dizeres ficariam restritos a uma aldeia miserável do Leste Europeu, declarações ESPONTÂNEAS/REAIS de cunho igualmente fascista. É o que acontece no episódio do rodeio e no dos universitários. Nem tudo são risos histéricos, portanto. Em passagens, como estas, o filme ganha um feição de amargor. Borat, o exótico, inoportuno, rude e imbecil habitante do Cazaquistão, ao contrário do que poderia ser imaginado, encontra pontos de contato com os bem-sucedidos, desenvolvidos, em suma "superiores", norte-americanos. Funciona como um espelho que destrói o simulacro, revelando o indesejável.
E a estocada mais virulenta vem quando, sob o pretexto de cantar em um rodeio no Texas (significativo, não?) o hino cazaque traduzido sobre a melodia do hino dos EUA, Borat desvela as entrelinhas do pensamento e do discurso do americano médio, muitas vezes escondidos sob belas palavras e conceitos, evidenciando todo o conservadorismo que acomete aquela nação numa era sob o signo das trevas de Bush.