O filme é muito mais do que uma comédia que objetiva arrancar risos desenfreados dos espectadores. É verdade que há momentos em que a platéia se descontrola de tanto rir em situações de humor puramente grosseiro, como na grotesca, certamente escatológica, cena em que Borat, o aloprado repórter vindo do Cazaquistão, e seu fiel escudeiro-produtor atracam-se nus num quarto de hotel. Há também um apelo para o absurdo: tenha-se em mente o Dom Quixote e o Sancho Pança "gauches" e pós-modernos, secundados por um urso pardo, "cavalgando" um carro decrépito pelas estradas da América, abusando de anarquia e iconoclastia.No entanto, o que realmente mais me impressionou e instigou foi o artifício utilizado para através da "parcela ficção" corporificada na comédia (personagens fictícios, situações pré-concebidas para gerar humor) serem revelados "flashs" do real sonho americano - que bem poderia ser um pesadelo - e do verdadeiro "american way of life". Daí porque pode também ser considerado um eficiente documentário. Assim, por exemplo, o FICTÍCIO jornalista anti-semita, sexista, racista e homófobo, habilmente extrai de alguns de seus entrevistados, que evidentemente acreditavam que seus lamentáveis dizeres ficariam restritos a uma aldeia miserável do Leste Europeu, declarações ESPONTÂNEAS/REAIS de cunho igualmente fascista. É o que acontece no episódio do rodeio e no dos universitários. Nem tudo são risos histéricos, portanto. Em passagens, como estas, o filme ganha um feição de amargor. Borat, o exótico, inoportuno, rude e imbecil habitante do Cazaquistão, ao contrário do que poderia ser imaginado, encontra pontos de contato com os bem-sucedidos, desenvolvidos, em suma "superiores", norte-americanos. Funciona como um espelho que destrói o simulacro, revelando o indesejável.
E a estocada mais virulenta vem quando, sob o pretexto de cantar em um rodeio no Texas (significativo, não?) o hino cazaque traduzido sobre a melodia do hino dos EUA, Borat desvela as entrelinhas do pensamento e do discurso do americano médio, muitas vezes escondidos sob belas palavras e conceitos, evidenciando todo o conservadorismo que acomete aquela nação numa era sob o signo das trevas de Bush.
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