Nas últimas duas semanas foram freqüentes os comentários na mídia a respeito do lançamento do livro "Kind of Blue", de Ashley Kahn, que disseca o antológico disco homônimo de Miles Davis. A publicação foi capa de cadernos culturais, colunistas, musicais ou não, saudaram o seu lançamento, e mesmo blogueiros de formação mais roqueira renderam-se a esse que se transformou num verdadeiro acontecimento do mercado editorial. Nada mais justificado. Acredito que não estamos diante de uma obra que se tornará um best seller, porém o seu lançamento representa o enriquecimento de um nicho literário pobre no Brasil, relativo à publicação de livros musicais, notadamente de jazz. Esse é um dos motivos pelos quais foi gerado o frisson que "Kind of Blue", o livro, que saiu no exterior num distante ano de 2000, tem causado por aqui. Some-se a isso a riqueza do texto de Kahn. Contém informações até então pouco conhecidas e preciosas, na medida em que o acesso às fitas originais das sessões de gravação na Columbia Records foi-lhe garantido, propiciando que os bastidores fossem retratados com fidelidade. Cada música é esquadrinhada magistralmente, uma a uma, revelando inclusive o ambiente que cercou a execução de cada qual. Aí só resta ao leitor tornar-se concomitantemente ouvinte, tocar o cd e perceber todos os detalhes e nuances.
Outro mérito é a abordagem histórica, a contextualização do álbum no tempo. Dentro dessa proposta, o autor encara com propriedade e dados técnicos o modalismo que norteou e permeou toda a obra, culminando com a criação do chamado jazz modal em contraste aos preceitos do bebop. Os protagonistas responsáveis pela realização dessa obra-prima da música do século passado, os gênios Miles Davis e John Coltrane, além dos soberbos Cannonball Adderley (sax alto), Bill Evans (piano), Winton Kelly (piano em "Freddie Freeloader"), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria), também tem seus perfis rascunhados em passagens reveladoras, o que contribui para a familiarização do leitor com as suas personalidades. É possível constatar, assim, a fundamental importância de Evans para a gestação de "Kind of Blue" e sucesso do jazz modal, mesmo não sendo creditado em composições como "Blue in Green", assim como a irresistível escalada de Davis rumo ao sucesso artístico e de público. Muito interessante também a figura de um Coltrane em transição, gestando nessa época de modalismo o passo revolucionário que em seguida viria a dar, impregnando de profunda espiritualidade a sua técnica.
P.s.: Ashley Kahn também é autor de outro livro nos mesmos moldes do aqui abordado sobre outra pedra de toque do jazz, "A Love Supreme" de John Coltrane. Vamos rezar pra que seja lançado também! A propósito, por onde anda a autobiografia de Miles, impossível de ser encontrada atualmente em qualquer livraria?
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