domingo, 13 de maio de 2007

O Dia em que a Ferrugem se Alastrou

20 de janeiro de 2001.Uma hora da manhã. Dia de menor público do Rock in Rio 3. Todos confortavelmente distribuídos num longínquo e enorme descampado da Barra da Tijuca onde foi erguida a Cidade do Rock.
Boa parte dos espectadores já havia deixado o local, depois de ter assistido aos desprezíveis shows de Kid Abelha, Sheryl Crow e Dave Matheus Band. Afinal, por que esperar pela apresentação daquele artista obscuro que iria encerrar os trabalhos do dia?
Apenas parte do imenso palco, cuja escuridão é quebrada parcialmente pelas vacilantes luzes de velas, será utilizada. A expectativa pelo início do show paira no ar e é quase palpável. Até que os primeiros acordes de "Sedan Delivery" são executados. O clima agora é de comoção. Não por qualquer tipo de efeito especial ou telões de última geração. Mas sim pela fúria, lirismo, autenticidade e integridade artística que são instaurados e serão despejados incessantemente a partir de então por Neil Young. Ele, secundado por sua banda de apoio Crazy Horse, é o responsável por alguns dos mais sublimes momentos de distorção, microfonia e improvisação já registrados. A diferença naquele momento era que tudo estava ali na frente, a alguns metros de distância.
Neil, trajando uma calça jeans surrada, camiseta branca e chapéu, emenda uma música na outra. Parece totalmente absorto pela arte que produz. Balança em transe, ao som das notas da guitarra. Em "Down By the River" uma corda arrebenta e ele segue solando, gerando perfeição da imperfeição. Quase não emite palavras. Não há espaço para presepadas, discursos messiânicos, frases feitas e quetais.
O set explora a vertente elétrica da obra de Neil. Isso significa barulho, feedback e blocos sonoros de alta densidade combinados com melodia e harmonia. Pedradas como "Fuckin'up" e "Rockin' in the Freeworld" são desferidas. Cortesia do "velhinho" que influenciou toda uma linhagem roqueira que vai de Sonic Youth, passando por Pixies, e chegando a Nirvana. Clássicos são perfilados. Há momentos arrebatadores como as longas versões de "Like a Hurricane" e da arrepiante "Cortez, the Killer". Em "Hey, Hey, My, My" e "Powderfinger" era possível ver pessoas chorando na platéia. Uma palavra resume tudo: catarse.
Depois de alguns anos posso reafirmar que se existem manifestações artísticas antológicas e transcendentes, esse show de Neil Young foi uma delas. Tenho orgulho de tê-lo presenciado. Rust Never Sleeps.

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