quarta-feira, 30 de maio de 2007

Novos Ecos dos Beach Boys

Em sua primeira empreitada solo, o álbum "Yours to Keep" (2007), Albert Hammond Jr., guitarrista do Strokes, revela-se tributário à sonoridade ensolarada dos Beach Boys e do pop-rock lisérgico da virada dos 60 para os 70. Há, portanto, uma mínimo ponto de contato com o disco de Panda Bear. A diferença aqui, diga-se de passagem, radical, reside no fato de que todas as canções são extremamente assimiláveis, longe de experimentalismos. Têm curta duração e possuem aquele gancho próprio das canções pop. Esta pequena palavra-rótulo, pop, contudo, deve ser entendida nesse particular longe de seu sentido depreciativo, mas sim como geradora de músicas bem encadeadas, dotadas de estrutura definida, melódicas e leves. Os sons levam à placidez e tranqülidade de espírito. Há assobios e "la-la-las".
Por sinal, esse clima de doçura já é anunciado logo na capa: um improvável desenho de uma floresta banhada pelo sol sob os olhares de coelhos... Nada mais anti-Strokes, paradoxalmente. O disco está a léguas do universo urbano, novaiorquino, soturno, sujo e nervoso da banda de origem de Hammond. Se bem que em "First Impresions of Earth", o Strokes flertou em algumas faixas com levadas próprias da surf music. Influência de seu guitarrista, talvez.
O fato é que "Yours to Keep" é, em sua trabalhada simplicidade, uma obra divertida, agradável e surpreendente, inclusive com bons vocais de Hammond.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

O nome do disco é "Person Pitch"- Panda Bear

Esse álbum, recentemente lançado por Panda Bear, alter ego de Noah Lennox, integrante do Animal Collective, promove uma viagem psicodélica, calcada na sonoridade dos Byrds e mais flagrantemente nos Beach Boys. Talvez por este fato, apesar de seus experimentalismos, tenha um viés "ensolarado". A influência da música oriental também é patente. A primeira faixa "Comfy in Nautica" lembra um mantra lancinante.
São apenas sete canções e algumas delas ultrapassam os dez minutos de duração. Aliás, não sei se seria apropriado falar em canção no sentido estrito da palavra. Fiquei com a impressão de que na verdade a intenção é apresentar painéis sonoros. Há uma linha mestra musical que é sobreposta por intervenções de ruídos e de instrumentos que tomam a linha de frente. Os vocais adocicados e assobiáveis ficam freqüentemente em segundo plano. São parcialmente diluídos e passam a "pairar no ar", enquanto os outros elementos sonoros prevalecem. Ao final de "Take Pills", por exemplo, a melodia é simplesmente varrida pelo barulho de um vento.
Não é um disco facilmente assimilável e requer concentração exclusiva do ouvinte. É bastante climático e etéreo - e às vezes pode ser cansativo. Parece que tudo foi planejado para soar como a expressão musical de um sonho iluminado e fugaz.
É um dos lançamentos mais perturbadores de 2007, ao lado de "Here We Go Sublime", do The Field e "Volta", de Bjork.

domingo, 13 de maio de 2007

O Dia em que a Ferrugem se Alastrou

20 de janeiro de 2001.Uma hora da manhã. Dia de menor público do Rock in Rio 3. Todos confortavelmente distribuídos num longínquo e enorme descampado da Barra da Tijuca onde foi erguida a Cidade do Rock.
Boa parte dos espectadores já havia deixado o local, depois de ter assistido aos desprezíveis shows de Kid Abelha, Sheryl Crow e Dave Matheus Band. Afinal, por que esperar pela apresentação daquele artista obscuro que iria encerrar os trabalhos do dia?
Apenas parte do imenso palco, cuja escuridão é quebrada parcialmente pelas vacilantes luzes de velas, será utilizada. A expectativa pelo início do show paira no ar e é quase palpável. Até que os primeiros acordes de "Sedan Delivery" são executados. O clima agora é de comoção. Não por qualquer tipo de efeito especial ou telões de última geração. Mas sim pela fúria, lirismo, autenticidade e integridade artística que são instaurados e serão despejados incessantemente a partir de então por Neil Young. Ele, secundado por sua banda de apoio Crazy Horse, é o responsável por alguns dos mais sublimes momentos de distorção, microfonia e improvisação já registrados. A diferença naquele momento era que tudo estava ali na frente, a alguns metros de distância.
Neil, trajando uma calça jeans surrada, camiseta branca e chapéu, emenda uma música na outra. Parece totalmente absorto pela arte que produz. Balança em transe, ao som das notas da guitarra. Em "Down By the River" uma corda arrebenta e ele segue solando, gerando perfeição da imperfeição. Quase não emite palavras. Não há espaço para presepadas, discursos messiânicos, frases feitas e quetais.
O set explora a vertente elétrica da obra de Neil. Isso significa barulho, feedback e blocos sonoros de alta densidade combinados com melodia e harmonia. Pedradas como "Fuckin'up" e "Rockin' in the Freeworld" são desferidas. Cortesia do "velhinho" que influenciou toda uma linhagem roqueira que vai de Sonic Youth, passando por Pixies, e chegando a Nirvana. Clássicos são perfilados. Há momentos arrebatadores como as longas versões de "Like a Hurricane" e da arrepiante "Cortez, the Killer". Em "Hey, Hey, My, My" e "Powderfinger" era possível ver pessoas chorando na platéia. Uma palavra resume tudo: catarse.
Depois de alguns anos posso reafirmar que se existem manifestações artísticas antológicas e transcendentes, esse show de Neil Young foi uma delas. Tenho orgulho de tê-lo presenciado. Rust Never Sleeps.