segunda-feira, 27 de agosto de 2007

"Daqui pro Futuro"- Pato Fu. Faixa a Faixa.


O Pato Fu ataca de novo, bem ao seu estilo mineiro- e agora independente. Lançou recentemente, e sem maiores alardes, "Daqui Pro Futuro", um álbum saboroso, que confirma a sua maturidade. É um atestado de sua consolidação como um grupo ímpar na cena nacional, que sabe imprimir como poucos uma marca autoral. Isso é peceptível tanto na musicalidade, quanto nos marcantes vídeos e na concepção geral artística que o envolve.
Deparamos agora com uma insuspeita coleção de canções pop de acabamento refinado. O disco é todo homogêneo. Transita entre sensíveis baladas e músicas mais dançantes. As intervenções eletrônicas estão presentes. De forma sutil, contudo. Não há pontos de queda. O nível de interesse é mantido uniforme durante toda a execução. Pra quem, que como eu, reclamava que o ano naufragava em marasmo no universo pop/rock nacional, está aí um disco que merece ser louvado, talvez mesmo como o melhor do ano até o momento. Basta sorver cada uma das canções.

Faixa 1- 30.000 Pés- A guitarra bluesy e o teclado, que remete a um clima onírico e pontuará a canção, abrem a primeira faixa. Letra e música levam a uma sensação de liberdade. A guitarra de John Ulhoa, sem dúvida um dos mais brilhantes músicos brasileiros, é o destaque, "comentando" todas as passagens da música com maleabilidade impressionante. Esse é o ponto de partida para o verdadeiro espetáculo que ele porporcionará até o final do álbum.
Faixa 2 - Mamã Papá- A letra fala da experiência da paternidade/maternidade. Provavelmente é autobigráfica, considerando que John e Fernanda Takai são casados- e pais. O ritmo aqui é contagiante e animado. Ouve-se um piano desinibido. O baixo pulsa. À voz de Fernanda são adicionados ecos. Percebem-se sons de brinquedos de bebê no fundo.
Faixa 3- Espero- A música é iniciada com acordes de harpa, que depois são amalgamados à frágil voz de Fernanda. Surgem cordas e uma discreta programação eletrônica. Backing vocals femininos susurrados secundam a vocalista. O resultado é intimista e comovente.
Faixa 4- Cities in Dust- Ótima regravação do hit de Siouxsie and The Banshees. O grupo habilmente não incorreu nos erros freqüentemente constatados em versões cover. Não regravou a música à imagem e semelhança do original, sem acrescentar nada portanto, nem criou uma versão que desfigurou a primeira completamente. O ritmo é bem delineado pelo baixo, produzindo uma balanço não presente na música regravada.
Faixa 5- Tudo vai ficar Bem- Parceria com Andrea Echeverria da banda colombiana Aterciopelados. Começa minimalista. Depois assume uma latinidade irresitível e repaginada. As engenhocas eletrônicas utilizadas parcimoniosamente por todo disco marcam presença mais uma vez. A guitarra de John soa rítimica casando bem com a percussividade geral.
Faixa 6- A Hora da Estrela- Referência ao universo de Clarice Lispector. Clima de penumbra. As luzes baixam depois da vivacidade anterior. Mais uma sofisticada balada. Pode ser considerada a seqüência estética de "Espero". Belíssimo trabalho de guitarra em que uma postura contida, porém cheia de técnica, também está concomitantemente impregnada de emoção.
Faixa 7- Woo!- Fogo na pista. O compasso muda mais uma vez. A faixa glam do disco. Riff marcante. Guitarras em ebulição. Batidas eletrônicas aceleradas. Vocais insinuantes. E um assumido clima de celebração. Diversão pura.
Faixa 8- A Verdade Sobre o Tempo- Flautinhas pastorais e psicodélicas, um piano de brinquedo, solos de slide guitar, devaneios sobre a vida que flutuam na melodia viajante. Essa é a história dessa música.
Faixa 9- Quem Não Sou- O Patu Fu envereda pelo synth pop. Bateria e barulhinhos eletrônicos, frases de teclado e seqüenciadores. Em certo momento surge até uma "escorregadia" cítara que gera uma atratividade extra.
Faixa 10- Vagalume- A música mais singela do disco. Quase que uma canção de ninar. Tem uma pureza invulgar. Uma doçura própria só das crianças. O pianinho de brinquedo e a voz de Fernanda são decisivos para essa impressão.
Faixa 11- Nada Original- Seria somente mais uma canção pop, com ganchos evidentes e refrão marcante, não fossem a sua riqueza melódica, a rica interação de instrumentos e as tramas de guitarra.
Faixa 12- 1000 Guilhotinas- Programações "amaciadas" e acordes delicados criam uma canção em tom de fábula, em que a suave sonoridade contrasta com a temática abordada (a guerra).

domingo, 12 de agosto de 2007

Goldie - Innercity Life

A música profundamente enraizada na cidade com reflexos no espaço. Vocais de D. Charlemagne.

A Inner City Life de Goldie


Goldie, o bizarro homem dos dentes de ouro, que já esteve no Brasil há dez anos no finado Free Jazz Festival, lançou em 1995 um dos álbuns responsáveis pela consolidação da música eletrôncia, o antológico "Timeless". Considero esse disco tão importante e influente quanto "Blue Lines" (Massive Attack), "Dummy" (Portishead), "Planet Exit Dust" (Chemical Brothers), "Moon Safari" (Air) ou "Endtroducing" (Dj Shadow), respeitados os nichos/particularidades de cada qual e considerando apenas os beats, samples e loops a irmaná-los. O jungle e o drum'n'bass foram a partir de então catapultados. Suas batidas quebradas e contagiantes ganharam popularidade em pistas de todo mundo e foram adotadas como elementos secundários em músicas de viés mais pop-comercial, impregnando até uma certa bossa nova repaginada num formato mais eletrônico. Outros nomes imprescindíveis nessa cruzada foram Roni Size, responsável pelo clássico "New Forms" de 1997, o sinistro Grooverider, pai das marteladas mais tonitruantes do drum'n' bass, e LTJ Bukem.

"Timeless" foi de tal forma marcante, que o próprio Goldie nos anos seguintes falhou em produzir algo que superasse a sua primeva obra. Parece que o magnetismo dela impediu qualquer avanço posterior significativo. Prova disso foi o que veio em seguida: o disco duplo "Saturnz Return" que em sua despropositada grandiloqüência foi um grande passo em falso. Hoje, Goldie vive num certo ostracismo, sem lançar nada de impactante.

Se "Timeless" é isso tudo, a sua primeira música homônima, uma suíte de prazerosos vinte e um minutos, composta de três passagens, é a sua carta de intenções. A primeira delas, "Inner City Life, é também a mais envolvente. O clima elegante, urbano e noturno, algo espacial, enraizado nas tradições da black music, combinado com os irresistíveis broken beats, não deixa pedra sobre pedra.