
O Pato Fu ataca de novo, bem ao seu estilo mineiro- e agora independente. Lançou recentemente, e sem maiores alardes, "Daqui Pro Futuro", um álbum saboroso, que confirma a sua maturidade. É um atestado de sua consolidação como um grupo ímpar na cena nacional, que sabe imprimir como poucos uma marca autoral. Isso é peceptível tanto na musicalidade, quanto nos marcantes vídeos e na concepção geral artística que o envolve.
Deparamos agora com uma insuspeita coleção de canções pop de acabamento refinado. O disco é todo homogêneo. Transita entre sensíveis baladas e músicas mais dançantes. As intervenções eletrônicas estão presentes. De forma sutil, contudo. Não há pontos de queda. O nível de interesse é mantido uniforme durante toda a execução. Pra quem, que como eu, reclamava que o ano naufragava em marasmo no universo pop/rock nacional, está aí um disco que merece ser louvado, talvez mesmo como o melhor do ano até o momento. Basta sorver cada uma das canções.
Faixa 1- 30.000 Pés- A guitarra bluesy e o teclado, que remete a um clima onírico e pontuará a canção, abrem a primeira faixa. Letra e música levam a uma sensação de liberdade. A guitarra de John Ulhoa, sem dúvida um dos mais brilhantes músicos brasileiros, é o destaque, "comentando" todas as passagens da música com maleabilidade impressionante. Esse é o ponto de partida para o verdadeiro espetáculo que ele porporcionará até o final do álbum.
Faixa 2 - Mamã Papá- A letra fala da experiência da paternidade/maternidade. Provavelmente é autobigráfica, considerando que John e Fernanda Takai são casados- e pais. O ritmo aqui é contagiante e animado. Ouve-se um piano desinibido. O baixo pulsa. À voz de Fernanda são adicionados ecos. Percebem-se sons de brinquedos de bebê no fundo.
Faixa 3- Espero- A música é iniciada com acordes de harpa, que depois são amalgamados à frágil voz de Fernanda. Surgem cordas e uma discreta programação eletrônica. Backing vocals femininos susurrados secundam a vocalista. O resultado é intimista e comovente.
Faixa 4- Cities in Dust- Ótima regravação do hit de Siouxsie and The Banshees. O grupo habilmente não incorreu nos erros freqüentemente constatados em versões cover. Não regravou a música à imagem e semelhança do original, sem acrescentar nada portanto, nem criou uma versão que desfigurou a primeira completamente. O ritmo é bem delineado pelo baixo, produzindo uma balanço não presente na música regravada.
Faixa 5- Tudo vai ficar Bem- Parceria com Andrea Echeverria da banda colombiana Aterciopelados. Começa minimalista. Depois assume uma latinidade irresitível e repaginada. As engenhocas eletrônicas utilizadas parcimoniosamente por todo disco marcam presença mais uma vez. A guitarra de John soa rítimica casando bem com a percussividade geral.
Faixa 6- A Hora da Estrela- Referência ao universo de Clarice Lispector. Clima de penumbra. As luzes baixam depois da vivacidade anterior. Mais uma sofisticada balada. Pode ser considerada a seqüência estética de "Espero". Belíssimo trabalho de guitarra em que uma postura contida, porém cheia de técnica, também está concomitantemente impregnada de emoção.
Faixa 7- Woo!- Fogo na pista. O compasso muda mais uma vez. A faixa glam do disco. Riff marcante. Guitarras em ebulição. Batidas eletrônicas aceleradas. Vocais insinuantes. E um assumido clima de celebração. Diversão pura.
Faixa 8- A Verdade Sobre o Tempo- Flautinhas pastorais e psicodélicas, um piano de brinquedo, solos de slide guitar, devaneios sobre a vida que flutuam na melodia viajante. Essa é a história dessa música.
Faixa 9- Quem Não Sou- O Patu Fu envereda pelo synth pop. Bateria e barulhinhos eletrônicos, frases de teclado e seqüenciadores. Em certo momento surge até uma "escorregadia" cítara que gera uma atratividade extra.
Faixa 10- Vagalume- A música mais singela do disco. Quase que uma canção de ninar. Tem uma pureza invulgar. Uma doçura própria só das crianças. O pianinho de brinquedo e a voz de Fernanda são decisivos para essa impressão.
Faixa 11- Nada Original- Seria somente mais uma canção pop, com ganchos evidentes e refrão marcante, não fossem a sua riqueza melódica, a rica interação de instrumentos e as tramas de guitarra.
Faixa 12- 1000 Guilhotinas- Programações "amaciadas" e acordes delicados criam uma canção em tom de fábula, em que a suave sonoridade contrasta com a temática abordada (a guerra).
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