sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Muito Mais Que Um Nome


Há um par de anos um nome foi soprado pelo vento e chegou aos meus ouvidos calejados. Em seguida vieram as canções, concomitantemente sombrias e pungentes. O lirismo de violas, violinos, violoncelos, xilofones, acordeons e harpas surgia em meio aos usuais guitarra, baixo e bateria. Num primeiro impacto fui tomado pelo estranhamento, mas não pela indiferença, impressão esta reforçada pelas letras que falavam de túneis impossíveis, de eletricidade (ou da falta dela), de vizinhança e até de vampiros. Elementos e metáforas inseridos nos conceitos de perda, inclusive a inexorável (a morte), de construção e de rompimento de vínculos que permeava todo o álbum, apropriadamente intitulado “Funeral”. Nele percebe-se uma melancolia invariavelmente atravessada por cânticos emocionados em uníssono, gerando uma visceralidade contagiante, característica esta imprescindível para entender o âmago da proposta artística.
Nos shows tudo fica ainda mais potencializado, ao nível do limite humano. Sons, palavras e performances ofertados como se fossem os últimos. Vislumbrados como uma benção única. O que vemos é uma comunhão ímpar. Os músicos trocam de instrumentos e de posição no palco de acordo com a canção a ser executada. Os dramas pessoais, as experiências dolorosas de perda relatadas nas músicas, tornam-se também da platéia que, contaminada, alça as canções ao patamar de hinos. “Wake Up”, a primeira delas, lança sobre todos uma corrente elétrica irresistível que irá cessar apenas ao fim do último acorde. Uma experiência encantadora, a princípio laica, que acaba assumindo ares religiosos.
Antologia essa é palavra. Arcade Fire: esse é o nome. Mais que um nome, é O NOME. A banda que marca o início desse século com a sua assinatura e que deixa claro que é possível fazer arte coerente e com conceito, abarcando desde a música propriamente dita até a concepção visual.

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