quarta-feira, 29 de novembro de 2006

O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias

Embora ambientado em 1970, durante o sanguinário governo do General Médici, "O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias", não tem como foco principal os confrontos entre militares e "subversivos". É certo que os pais do pré-adolescente Mauro estão envolvidos em movimentos contestatórios ao regime autoritário e, em razão disso, são obrigados a tirar "férias" compulsórias, sendo esse fato determinante para as situações que o garoto irá vivenciar. Porém, antes de tudo é um filme sobre a solidão (daí a recorrente analogia com a figura do goleiro) e a ansiosa expectativa do reencontro. Sobre a inserção repentina do protagonista num microcosmo social que lhe é estranho, a comunidade judaica do bairro paulista Bom Retiro, sem qualquer referência familiar, já que seus pais "viajaram" e seu avô está morto, e o seu processo de adaptação ao mesmo.
O estranhamento inicial da nova vida vai aos poucos sendo superado pela interação do protagonista com outros personagens repletos de humanidade os quais, pode-se dizer, passam a funcionar como sua família adotiva. A comunidade judaica acaba por revelar-se como um universo acolhedor, verdadeira muralha às atrocidades que acontecem "lá fora". O protagonista, judeu "não praticante", talvez devido a um provável ateísmo de seus pais marxistas, descobre suas origens. Apenas no final do filme as duas realidades irão intercomunicar-se.
Além de personagens cativantes e de uma abordagem reflexa dos Anos de Chumbo, o filme é interessante quando utiliza como pano de fundo a Copa do Mundo do México, introduzindo a coexistência de emoções contraditórias: num plano geral, o medo e a apreensão trazidos pelo aparato repressor militar e a euforia pelas espetaculares vitórias da seleção brasileira, e num aspecto particular, entre estas e a incerteza do garoto quanto ao retorno de seus pais.
O filme também tem um víes de crônica de passagem da infância para a adolescência , ao retratar o mundo juvenil, e mesmo de crônica de costumes, ao abordar as idiossincrasias da comunidade judaica e de seus componentes. Isso contribui para conferir-lhe leveza.
A única restrição que tenho é em relação à inverossimilhança do episódio crucial de início do filme quando o garoto é pura e simplesmente deixado por seus pais na porta da residência de seu avô.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Garimpando cd's

Acabo de ouvir o cd "Detroit" de Yussef Lateef (sax tenor e flauta). Um discaço!!! Foi gravado em 1969, e traz um jazz descomplicado, alinhado com o hard bop. Tem considerável influência de black music, muito "groove", percussão afro e até momentos lisérgicos. Parece que em alguns aspectos até antecipa o que Isaac Hayes e Curtis Mayfield viriam a fazer na década seguinte ("Blaxploitation"), em discos como "Shaft" e "Superfly", respectivamente. Até lirismo tem: a última faixa, a arrebatadora "That Lucky Old Sun".
E o que o título desse "post" tem a ver com o que disse acima? Comprei o disco, pelo equivalente a R$7,00, depois de achá-lo "perdido" em um prateleira. Não conhecia nada do artista, a não ser a capa do disco que já tinha visto em uma reportagem na qual Ed Motta elegeu-a como uma das mais interessantes de todos os tempos. Arrisquei e acertei... Lembro também de ter garimpado e comprado por preços ridículos outros álbuns sensacionais: "Entertainmente!", do Gang of Four e "Roseland NYC Live", do Portishead.

Orquestra Tipica Fernández Fierro

É um grupo formado por jovens músicos de Buenos Aires que busca promover a revitalização do tango. Acabei de ouvir, aliás por duas vezes seguidas, o terceiro disco deles intitulado "Mucha Mierda", inédito no Brasil, e que comprei por plagas portenhas. Excelente. Distante dos clichês que assolam o gênero e conduzem à sua estagnação e, ao mesmo tempo, respeitoso. O som é bastante orgânico e cortante. Os instrumentos duelam criando climas tensos e confrontadores. Aqui não há muito espaço para a faceta melancólica do tango. Muitas vezes parece que os integrantes utilizam-se de levadas próprias do rock, e mais do que isso parecem querer fundir a alma tangueira com a atitude roqueira. Introduzem concepções novas dentro de uma vertente distinta, e a meu ver mais interessante por estar menos explorada comercialmente, daquela adotada por artistas que promovem a mescla com elementos eletrônicos (samples, loops e batidas suaves), em movimento similar ao que aconteceu (e ainda acontece) com a MPB, mais especificamente a bossa nova (vide, por exemplo, Bebel Gilberto e Bossacucanova). Nessa linha recomendo os álbuns de Bajofondo Tango Club, Carlos Libedinsky e Otros Aires. Isso sem falar no europeu e internacionalmente conhecido Gotan Project.
É bom não esquecer também que acima de todos paira a figura inspiradora, e também renovadora no seu tempo, de "São" Astor Piazzolla, valendo lembrar que vários de seus discos foram reeditados na Argentina em edição crítica.

domingo, 19 de novembro de 2006

Revista Rolling Stone

Ótimo que a Rolling Stone esteja sendo publicada de novo por aqui depois de um hiato de mais de 30 anos. É a oportunidade de ler boas resenhas musicais e outras matérias sobre cultura pop, comportamento e até política. As críticas parecem bem equilibradas. E não há aquele tom quase débil mental e "pseudo jovem moderno" próprio de outras publicações e mídias do gênero. Espero que tenha vida longa.

Show do New Division

Uma noite pra guardar a de quinta-feira, dia 16... Foi um dos melhores shows do ano, o do New Order. No palco estavam figuras essenciais da história da música pop executando seus próprios clássicos e os do Joy Division... "Transmission", "She's Lost Control" e a soberba "Love Will Tear Us Apart". Soou bem a combinação das aparentemente díspares sonoridades das bandas. Foi a convivência da eletrônica, do tecnopop e dos climas mais descontraídos do New Order com a música atormentada, sombria e marcial do Joy division.
O destaque da banda pra mim é o Peter Hook, mesmo vestindo a indefectível camisa da seleção brasileira, como fazem 09 entre 10 popstars quando aportam por esses tristes trópicos. Pode não ser um virtuoso, mas toca baixo de um modo tão singular que é facilmente reconhecível. Criou uma bela marca registrada.
O único senão foi a qualidade do som, abafado e tosco. Ficou a dúvida se por causa da acústica do Vivo Rio ou pelo fato da banda ter vindo ao Brasil sem um técnico de som (como noticiado nos jornais).

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Travessuras da Menina Má

Acabei de ler na semana passada. No geral, é bom entretenimento. É um livro que "pega". Apesar de ser uma obra de Vargas Llosa com pretensões artísticas mais modestas - e talvez por isso - a leitura é agradável e fluida. A preocupação aqui é somente a de contar uma história "redonda" com pleno domínio da técnica literária. Parece que deu certo, já que o livro tem boa vendagem em muitos países, inclusive no Brasil.
Uma das espertezas da obra é a utilização de variadas e atrativas "locações" em momentos históricos relevantes e bem demarcados como pano de fundo. Tal recurso está longe de ser original, mas seduz o leitor, servindo também para suavizar inclusive um certo cansaço gerado pelos reiterados encontros e desencontros amorosos dos personagens centrais. Estes tem a capacidade de irritar o leitor em várias passagens com a repetição de seus comportamentos ao longo de várias fases de suas vidas (seria intenção do autor?).
Conclusão 1: Sem dúvida, devido ao caráter um tanto quanto confuso de nossos heróis, é um romance "circular".
Conclusão 2: Existe o correspondente masculino à popular expressão "mulher de malandro", e atende pelo nome do protagonista , "Ricardo".

Shows Antológicos

Para estar na antologia um espetáculo tem que ser de tal forma impactante e sublime que deixe uma marca indelével na memória. Entre outros pensamentos mais ou menos cotados, deve retornar freqüentemente, sem cerimônia ou aviso prévio. Deve projetar-se além daqueles momentos originais e terrenos em que foi executado. Deve eternizar-se. Deve integrar o olimpo da subjetividade.
Não são necessários fogos de artifício, efeitos especiais de última geração, produções caras, discursos fáceis e coreografias banais. Coerência, comprometimento prioritário com a arte, manifestações honestas, despojamento, emoção em estado bruto são os elementos essenciais para que a antologia seja alcançada. Nesses casos, o arrebatamento e a até a epifania serão constantes.
Assisti a um grande número de shows, muitos corretos, divertidos, bons ou ótimos. Os antológicos foram poucos. Compreensível: a antologia é uma exceção. E é bom que assim seja.
Sou sempre visitado pelos espectros dos shows de Neil Young, Nirvana, Wilco, Arcade Fire, R.E.M, Kraftwerk... Qual será o próximo?

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

O porquê de ficar atento à ferrugem

A ferrugem é o cancro incessante que estimula a renovação. Uma vez parado você será inclementemente engolido por ela. Essa é a regra enunciada com acuidade pelo mestre Neil Young, não por acaso um exemplo de integridade artística. Aplica-se com exatidão às diversas formas de expressão cultural. É a assertiva básica e ameaçadora que deveria nortear qualquer processo criativo.
Infelizmente, muitos ignoram esse postulado básico, pois não tem qualquer comprometimento artístico. São gestados nos laboratórios das grandes corporações associadas com a mídia de massa tradicional. Não se propõem a um mínimo de esforço criativo, mesmo porque invariavelmente não têm um pingo de talento. Fogem do risco em busca do sucesso fácil. Fórmulas baratas são criadas, exploradas, exauridas e recriadas com uma nova roupagem igualmente ordinária. Outros, que a princípio apresentavam-se como renovadores, entregam-se à estagnação, arriscando muito pouco, ou nada. Nesses casos pode até ser que milhões em dinheiro sejam acumulados, o que poderia em muito compensar esse tipo de empreitada. Mas, por outro lado, às vezes nem percebem, ou percebem, e tem crises existenciais, que estão corroídos. É a ferrugem.
É certo que existe atualmente pouco espaço para criação de algo genuinamente novo, seja na música, no cinema, nas artes plásticas, na literatura, na cultura em geral. Temos a impressão de que tudo já foi explorado e inventado. Mas é fato que muitos artistas se empenham em gerar algo realmente criativo, intrigante e instigante. Podem até errar a mão. Correm riscos. Mas dignificam o que fazem. Trabalham, via de regra, à sombra da mídia massiva e comprometida. A questão é que esta não é mais tão importante hoje em dia. Tvs, rádios e jornais tradicionais, muitas vezes atrelados a interesses inconfessáveis, já não acrescentam muito...Os consumidores de cultura tem hoje outra ferramenta essencial de informação e pesquisa. A Internet. Basta que não sejamos acomodados e não recebamos passivamente informações. Uma simples navegação pode revelar artistas interessantíssimos. Há novidade, há criatividade longe dos refletores. E isso felizmente numa velocidade diretamente proporcional à ferrugem que consome as contrafações que campeiam por aí.