sexta-feira, 29 de junho de 2007

Posters Históricos (I)

A arte expressionista-futurista do poster prenuncia o impacto estético causado pelo alemão Fritz Lang nas telas de cinema com a obra-prima "Metrópolis", de 1927.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

A Rainha


Fui assistir ao filme "A Rainha" sem maiores expectativas. Talvez porque o tema monarquia não me desperte grande interesse. É evidente que existe pelo menos um filme soberbo sobre monarcas: o antológico "Ludwig" (lançado pela Versátil em sua versão integral e com extras). Porém, o personagem retratado era outro, virtualmente muito mais rico em particularidades, e o diretor o gênio Luchino Visconti.

Na película em questão o cineasta é o bom, porém desprovido daquela centelha de talento que faz a diferença, Stephen Frears, e os retratados são a Família Real Inglesa e tudo que lhe é inerente, figuras que considero desinteressantes, como o Príncipe Charles, Camila Parker Bowles e mesmo a "santificada" Diana.

Mas... Enfim, agora aconteceu comigo o inverso do que ocorreu quando vi "Alta Fidelidade", dirigido pelo mesmo Frears. Neste último entrei no cinema com grandes esperanças e sai francamente decepcionado. Já "A Rainha"... É, sem dúvida, um dos grandes filmes do ano! Não vou nem falar na já tão elogiada atuação antológica de Helen Mirren, que incorpora até os trejeitos corporais de Elizabeth II, nem das performances de todo o elenco. Perfeitos. A narrativa, adequadamente, não busca maiores inovações ou rupturas. Nesse caso nem era necessário. A trama casa bem com o estilo de Frears, um cronista de costumes, especialmente dos britânicos (aqui magistralmente capturados, principalmente os maneirismos da realeza).

O roteiro de Peter Morgan é um primor. Muito bem amarrado, sem deixar arestas. Os diálogos sagazes. Não é à toa que mesmo o espectador mais cético, como eu, fica magnetizado durante toda a projeção, do início até o desfecho final, mesmo conhecendo fatos que são notórios e que já fazem parte da história recente da humanidade. A abordagem é muito inteligente. Um achado. O que estariam pensando os grandes protagonistas daquela história em seu espaço privado, onde decisões de interesse público são tomadas, e ao qual nenhum súdito "mortal" tem acesso? Como estariam agindo por trás da fachada do comportamento oficial?

O filme especula, de forma absolutamente crível, sobre os bastidores pessoais e políticos, aos quais somos transportados, da tragédia que foi a morte da princesa Diana. Desloca o foco para o poder e humaniza os seus detentores, a Rainha Elizabeth II e o então primeiro-ministro Tony Blair. A figura do governante é posta em jogo. Temos uma monarca presa a tradições e códigos secularmente arraigados, acuada pelo clamor popular que exige que a realeza preste as devidas homenagens à Princesa Diana, sob pena de a Monarquia Inglesa sofrer sérios abalos em sua credibilidade.

Dentro dessa abordagem, a rainha não oprime, mas, diante de todas as pressões, sente-se oprimida. Está em xeque. Subjacente à morte de Diana, surgem tensões entre a necessidade de manutenção do rito/tradição e o imperativo, emanado do povo, de um reinado mais progressista. Blair, o primeiro-ministro trabalhista surge, incialmente, como o contraponto ao comportamento dos monarcas. É a lufada de renovação necessária. No entanto, à medida que o filme se desenvolve, torna-se, com sua habilidade política, um conselheiro informal da rainha, já que vislumbra um panorama de instabilidade institucional (que deseja evitar) caso a Família Real reitere seu posicionamento. Consegue que Elizabeth II finalmente ceda. O que ocorre, portanto, é um movimento de aproximação. Se antes tínhamos Chefes de Governo e de Estado em clássicas posições antagônicas (conservadorismo versus progressismo), ao final do processo temos governantes mais próximos. Elizabeth II ganha um "verniz" modernizante, enquanto Blair ostenta um perfil "trabalhista, ma non troppo".

Afinal, ambos não são tão diferentes. E isso é lembrado pela rainha no brilhante e memorável diálogo final, quando a personagem, lançando mão da fina sutileza que lhe é peculiar, sugere ao primeiro-ministro que um dia poderia ser ele a entrar na berlinda. Coisas do poder. Dito e feito.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Gotan Project - Mi Confésion

Clipe de Mi Confésion. No Canecão os rappers eram virtuais, porém interagiram com pefeição com os músicos de carne e osso do Gotan.

Gotan Project no Canecão


O Gotan Project proporcionou na última quinta-feira um espetáculo inebriante no Canecão, infelizmente ignorado pelos indigentes cadernos culturais de jornal (a crítica impressa morreu definitivamente por aqui?). A banda franco-argentina, que criou o crossover tango com beats eletrônicos (e foi massivamente copiada posteriormente), subiu ao palco com piano, violinos, cello, bandoneon e violão irmanados com pick ups e parafenália eletrônica. Lançou sobre os espectadores da casa de shows, totalmente lotada, o lirismo e a tradição do tango combinados com levadas de dub e hip hop, samples e batidas sintéticas. Nesse caldeirão o tango saiu valorizado, revitalizado, e não violentado, como alguns puristas podem achar. Nem mesmo o torpor que a lounge music pode por vezes ocasionar, e com a qual o Gotan pode superficialmente ser associado, fez-se presente.

O clima de empolgação foi contínuo. O público urrava, assobiava, aplaudia longamente no final das músicas, gerando um evidente contentamento nos ótimos músicos. As canções, pinçadas dos discos "La Revancha del Tango" e "Lunatico", revelaram-se absolutamente magnéticas ao vivo, talvez por serem ainda mais realçadas pela grande sacada que foi a projeção de vídeos no fundo do palco, que serviam como comentários das mesmas (em "Lunatico", aparece um páreo de corrida em alusão ao cavalo de mesmo nome de Carlos Gardel) ou então como artifício interativo (rappers virtuais projetados que, de forma incrível, dialogam com o que está sendo apresentado no palco e entram rimando no tempo certo da música).

Foi, enfim, uma performance inesquecível de TAN-GO do GO-TAN.

The Gossip - Standing In The Way Of Control

Comandado pela carismática e algo bizarra Beth Ditto (tenho a intuição de que ela e Amy Winehouse poderiam ser amigas inseparáveis), o The Gossip, banda radicada em Olympia e apontada pela revista inglesa "Q" como uma das mais interessantes atualmente (ao lado de, entre outros, Arcade Fire, Arctic Monkeys e Kings of Leon), tem em "Standing in the Way of Control", a sua canção mais bem resolvida e deveria ser adotada como parâmetro para os seus futuros álbuns.
São pouco mais de quatro minutos em que a fúria e a energia do punk casam com perfeição com passagens funkeadas, sob as benções dos marcantes e urgentes vocais de Beth. A música é contagiante, "pega" logo na primeira audição, tem "gancho". É capaz de ser incendiária, como pude ver na Pista 3 recentemente, quando todos cantaram em uníssono.
A música está presente no bom disco homônimo (exceto pela capa tosca) lançado pelo Gossip em 2005. Veja acima a performance do Gossip executando "Standing" em Nova York no Knitting Factory.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Rockers


Traduzir em imagens o som do rock'n'roll. É o que as fotos de Bob Gruen porporcionam. Várias delas estão ao nosso alcance através das reproduções contidas no bem acabado álbum "Rockers" editado pela Cosac Naify, gerado a partir de mostra exibida na FAAP, em São Paulo.
Gruen foi o fotógrafo oficial de John Lennon por nove anos. Fotografou também os mais diversos artistas, seja no palco, seja nos bastidores, razão pela qual é considerado um personagem essencial do universo pop/rock. Seu trabalho é historicamente relevante. Capta a alma e a evolução desse gênero musical. The Who, Led Zeppelin, Rolling Stones, Patti Smith, New York Dolls, Michael Jackson, Chuck Berry, Kiss, Marvin Gaye e muitos outros não escaparam de suas lentes.
Os flagrantes da emergente cena novaiorquina do punk rock nos anos 70 servem como uma versão ilustrada, vívida e complementar do livro "Mate-me, por favor", cujo assunto é idêntico. Estão lá bandas como Ramones e Blondie tocando nos "templos" CBGB e Max's Kansas City.
Outros instantâneos antológicos estão presentes no livro. Um exemplo são os registros de Sid Vicious, que conseguem captar a aura patética e vazia do baixista dos Sex Pistols. Ou mesmo a marcante foto do Clash em ação. Quase dá pra ouvir os acordes de "London Calling"... Ou então Jimmy Page solando sua guitarra de dois braços. A lamentar apenas a publicação de uma foto do nosso charada brasileiro, mais conhecido como Supla. Figura importante na história do rock? Ahnn, claro que sim... Ele foi o curador da mostra de Gruen na FAAP.

Luzes sobre uma "estrela"

Flash 1: A culta e bem informada estrela, de nacionalidade norte-americana, casada com um dos inúmeros filhos de Bob Marley e que atende pelo nome Lauryn Hill, ex-integrante dos Fugees, atualmente em empreitada solo, chega ao Brasil. Minutos depois pede US$ 10.000,00 a seu empresário para gastar por aqui, pois não trouxe cartões de crédito. Disse não saber que tal forma de pagamento era aceita por aqui.
Flash 2: Tendo sido solicitada uma entrevista pela Globo, responde que só a daria caso o entrevistador fosse negro. Será que ela queria dar uma força pro regime de cotas raciais? Uma grande prova de engajamento! Malcolm X perde.
Flash 3: Lauryn chega a um estúdio de gravação toda vestida de preto e com uma touca ninja. Diz que não quer ser importunada e acrescenta que não permite que ninguém lhe dirija o olhar. Tá certo, claro! Ela não é uma superstar?
Flash 4: Dia do tão aguardado show no Vivo Rio. Os espectadores, devidamente paramentados ao estilo de sua ídola, e que desembolsaram R$160,00 para vê-la, aguardam duas horas e meia até que a divindade suba ao palco.
Flash 5: Começa o espetáculo. Lauryn está rouca e praticamente não se dirige ao seu público. Está sem voz? Isso é apenas um detalhe perdoável...
Perguntar não ofende: o que Lauryn Hill veio fazer por aqui? Destilar a sua miseducation? Acho que conseguiu. Muita gente deve estar achando o máximo.

Calor


Calor é o nome do livro recém-publicado pela Companhia das Letras e que, desde já, é uma das publicações mais interessantes sobre gastronomia disponível no mercado. O autor é Bill Buford, prestigiado jornalista norte-americano, que relata a sua experiência como aprendiz de cozinheiro num restaurante três estrelas de Nova York, o Babbo, cujo proprietário é o renomado Mario Batali.

A princípio, Buford revela os bastidores frenéticos da cozinha de um conceituado estabelecimento. Nesse aspecto não chega a ser tão original assim. Isso já foi feito em livros como "Cozinha Confidencial", de Anthony Bourdin e mesmo em programas televisivos no estilo do reality show capitaneado por Gordon Ramsay. A diferença é que "Calor" traz um bem delineado retrato de um amador, que simplesmente abandona o seu bem-sucedido ofício de editor de respeitadas revistas, para submergir num universo completamente estranho e hostil e, não obstante, adquirir o jogo de cintura necessário para sobreviver nesse meio, aí incluidas técnicas culinárias absorvidas na dura labuta diária de um restaurante, sendo, ao final, igualmente bem-sucedido.

O Babbo, seus funcionários e Mario Batali são a linha mestra que estrutura o livro e conduz o leitor por episódios curiosos, engraçados e altamente informativos. Através deles Buford acaba parando na Itália. Lá, trava contato com a tradição da culinária da "Bota". Aprende, in loco, a arte da confecção das massas. Conhece receitas passadas de geração para geração. Viaja para a Toscana, onde "estagia" no açougue de Dario Cecchini, considerado o melhor açougueiro do mundo e ferrenho defensor do terroir da região do Chianti.

As estadias do autor na Itália acabam servindo de contraponto ao ritmo febril do novaiorquino Babbo, onde a combinação de qualidade diferenciada - personificada nas criações de Batali - com eficiência máxima é o vetor principal (imperativo de preparação dos pratos com perfeição em tempo curto, mesmo que de forma pouco artesanal, isto é, com a utilização de máquinas e não completamente fiel ao facere italiano, como no caso das massas). Em Poretta e na Toscana, os seus tipos, representados com exatidão na figura de Cecchini reafirmam a força da tradição, de uma cultura culinária profundamente enraizada e plena de identidade. À maneira de seus antepassados, produzem suas massas manualmente. Realizam cortes de porcos e bois segundo as suas próprias técnicas amplamente consolidadas.

O livro tem, portanto, esse aspecto pendular. Aborda a excelência de concepções diferenciadas de preparo das universalmente apreciadas refeições italianas. Mosta o porquê da feitura da comida ser também revelador do modo de ser das pessoas.

Cobrindo toda essa suculenta trajetória, são salpicadas informações sobre estrelas da culinária italiana como o tomate, a polenta e a bisteca fiorentina, e apresentados personagens essenciais para a gastronomia e para a cultura ocidental, como Maestro Martino e outros autores da Renascença.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Há Vida inteligente Longe dos Holofotes

Ligo a televisão. Começo a zapear na busca de algo relevante. Nada. Os espaços já estão loteados entre os velhos conhecidos donos do poder da indústria do entretenimento. Produção em massa. Artistas (?) gestados em escritórios comandados por yuppies e fabricados em linhas de montagem dominam a programação. Eles querem ser os mais vendidos... Não fazem questão de tocar seu coração, mas principalmente o seu $$$...
A deusa-besta da axé music, cujo nome não vale a pena declinar, foi feita ubíqua agora que diz ter igualado o feito de Madonna... Já chegou ao topo. O céu não é mais o limite para ela. Natural: o mérito de um artista dentro dos cânones da indústria continua sendo medido unicamente pelo número de discos e Dvds vendidos, não pela relevância ou qualidade do que é produzido. Bem, essa é um lógica perfeitamente justificável quando se quer vender cheeseburgers...
E tome entrevistas de conveniência nos mais diversos canais, resenhas elogiosas em publicações musicais, participações em programas flagrantemente jabazentos ou supostamente respeitáveis! As músicas toniturantes executadas em todas as rádios sem-vergonha que assolam o dial. E, como não bastasse, a vida privada dessas "celebridades" querendo invadir o espaço público em pasquins de fofoca. E tome poeira, muita poeira, provinda de Tvs de LCD, nos ouvidos e nos olhos dos incautos que pretendem comprar o seu Orhan Pamuk ou o seu Charlie Parker em paz numa grande rede como a FNAC!
Nada de novo. Sempre foi assim. O lixo continua a ser imposto sem piedade. Até mesmo velhos críticos do status quo são cooptados e, incoerentes, gravam Acústicos MTV e voltam de braços abertos ao porto seguro das rádios. A propósito, falando em MTV, vale a pena citar Caetano que, disparando há alguns anos atrás, acertou no alvo do futuro sem querer: "Vergonha na cara Emetevê!!!"
A diferença agora é que mesmo com as virulentas estratégias de promoção tradicionalmente praticadas, as vendas de álbuns de vários contratados sedentos em beneficiar-se delas mantêm-se incipientes. Apenas alguns "fenômenos" conseguem se segurar. E não por conta de sua qualidade artística, mas tão somente por uma eventual, inescrupulosa e violentíssima campanha de marketing, expressa em mecanismos freqüentemente ilegítimos. É o caso da já mencionada baiana, metade deusa, metade besta.
Alguns, diante desse panorama lamacento, não muito distante da degenerescência que assola o país nos mais diferentes níveis, trombeteam que a música brasileira está em crise. Tal assertiva está correta apenas em parte. Seria melhor formular assim: a música brasileira do establishment, dos apadrinhados de sempre anda muito mal das pernas dentro do que se propõem (vender a qualquer custo sem outras preocupações mais elevadas). Porém, há vida inteligente longe dos holofotes. Sempre houve. E agora ela está mais acessível do que antes. Isso em grande parte devido aos meios alternativos de divulgação, notadamente a Internet e todas as ferrmentas que lhe são inerentes, assim como também às facilidades tecnológicas de gravar discos, inclusive em estúdios caseiros. É provável que grandes artistas tenham no passado sido relegados ao ostracismo devido à dificuldade em chegar ao consumidor de bens culturais, em razão da inexistência de vias alternativas sólidas. Hoje, pelo menos uma parcela do público que não se contenta com o "fast food nosso de cada dia" que lhe é oferecido, pode realizar um verdadeiro trabalho de peneira e encontrar jóias de valor inestimável. O negócio é revolver a camada espessa de gordura descartável e achar cantores, cantoras e bandas que priorizam o ato de criar, a excelência do que produzem, em detrimento do vale tudo pelo sucesso.
É o caso de Kassin+2 e Mombojó que no último sábado, no Circo Voador, deram uma prova contudente da vitalidade dessa nova música brasileira. Os primeiros, confirmando o que registraram em Futurismo, um dos grandes álbuns de 2007, processam com competência as inspirações trazidas por mestres como João Donato, Marcos Valle, Ed Lincoln, Banda Black Rio, com música latina e até hardcore, criando algo genuinamente criativo e instigante. O Mombojó não ficou atrás e ofereceu uma performance visceral, em que os violões, cavaquinhos e flautas do samba e do choro, além das interferências da música eletrônica, interagem com os clássicos guitarra, baixo e bateria furiosos. São uma pequena amostra, afortunadamente.
É fácil mencionar outros: Cordel do Fogo Encantado, Cidadão Instigado, mundo livre S.A., Nação Zumbi, Gui Boratto, Vanguart, Violins, a "família" Orquestra Imperial, Wado/Fino Coletivo, Hurtmold, Nervoso, Móveis Coloniais de Acaju...Assim como o fora de série Los Hermanos que faz parte do cast de uma major- exceção que confirma a regra. Vale destacar as cenas de Recife, de Goiânia e de outras cidades fora do eixo Rio-São Paulo. Saindo do nicho pop/rock, pontificam Guinga, Yamandú Costa, Hamilton de Holanda, Rômulo Fróes, Marcelo Campello (também violonista do Mombojó) e a nova geração de sambistas sediados na Lapa e adjacências. E os inúmeros artistas da Biscoito Fino, uma das poucas gravadoras respeitáveis atualmente. Todos esses fazem companhia a movimento similar que se desenvolve em âmbito internacional, do qual o representante máximo é o canadense Arcade Fire.