
Fui assistir ao filme "A Rainha" sem maiores expectativas. Talvez porque o tema monarquia não me desperte grande interesse. É evidente que existe pelo menos um filme soberbo sobre monarcas: o antológico "Ludwig" (lançado pela Versátil em sua versão integral e com extras). Porém, o personagem retratado era outro, virtualmente muito mais rico em particularidades, e o diretor o gênio Luchino Visconti.
Na película em questão o cineasta é o bom, porém desprovido daquela centelha de talento que faz a diferença, Stephen Frears, e os retratados são a Família Real Inglesa e tudo que lhe é inerente, figuras que considero desinteressantes, como o Príncipe Charles, Camila Parker Bowles e mesmo a "santificada" Diana.
Mas... Enfim, agora aconteceu comigo o inverso do que ocorreu quando vi "Alta Fidelidade", dirigido pelo mesmo Frears. Neste último entrei no cinema com grandes esperanças e sai francamente decepcionado. Já "A Rainha"... É, sem dúvida, um dos grandes filmes do ano! Não vou nem falar na já tão elogiada atuação antológica de Helen Mirren, que incorpora até os trejeitos corporais de Elizabeth II, nem das performances de todo o elenco. Perfeitos. A narrativa, adequadamente, não busca maiores inovações ou rupturas. Nesse caso nem era necessário. A trama casa bem com o estilo de Frears, um cronista de costumes, especialmente dos britânicos (aqui magistralmente capturados, principalmente os maneirismos da realeza).
O roteiro de Peter Morgan é um primor. Muito bem amarrado, sem deixar arestas. Os diálogos sagazes. Não é à toa que mesmo o espectador mais cético, como eu, fica magnetizado durante toda a projeção, do início até o desfecho final, mesmo conhecendo fatos que são notórios e que já fazem parte da história recente da humanidade. A abordagem é muito inteligente. Um achado. O que estariam pensando os grandes protagonistas daquela história em seu espaço privado, onde decisões de interesse público são tomadas, e ao qual nenhum súdito "mortal" tem acesso? Como estariam agindo por trás da fachada do comportamento oficial?
O filme especula, de forma absolutamente crível, sobre os bastidores pessoais e políticos, aos quais somos transportados, da tragédia que foi a morte da princesa Diana. Desloca o foco para o poder e humaniza os seus detentores, a Rainha Elizabeth II e o então primeiro-ministro Tony Blair. A figura do governante é posta em jogo. Temos uma monarca presa a tradições e códigos secularmente arraigados, acuada pelo clamor popular que exige que a realeza preste as devidas homenagens à Princesa Diana, sob pena de a Monarquia Inglesa sofrer sérios abalos em sua credibilidade.
Dentro dessa abordagem, a rainha não oprime, mas, diante de todas as pressões, sente-se oprimida. Está em xeque. Subjacente à morte de Diana, surgem tensões entre a necessidade de manutenção do rito/tradição e o imperativo, emanado do povo, de um reinado mais progressista. Blair, o primeiro-ministro trabalhista surge, incialmente, como o contraponto ao comportamento dos monarcas. É a lufada de renovação necessária. No entanto, à medida que o filme se desenvolve, torna-se, com sua habilidade política, um conselheiro informal da rainha, já que vislumbra um panorama de instabilidade institucional (que deseja evitar) caso a Família Real reitere seu posicionamento. Consegue que Elizabeth II finalmente ceda. O que ocorre, portanto, é um movimento de aproximação. Se antes tínhamos Chefes de Governo e de Estado em clássicas posições antagônicas (conservadorismo versus progressismo), ao final do processo temos governantes mais próximos. Elizabeth II ganha um "verniz" modernizante, enquanto Blair ostenta um perfil "trabalhista, ma non troppo".
Afinal, ambos não são tão diferentes. E isso é lembrado pela rainha no brilhante e memorável diálogo final, quando a personagem, lançando mão da fina sutileza que lhe é peculiar, sugere ao primeiro-ministro que um dia poderia ser ele a entrar na berlinda. Coisas do poder. Dito e feito.
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