Ligo a televisão. Começo a zapear na busca de algo relevante. Nada. Os espaços já estão loteados entre os velhos conhecidos donos do poder da indústria do entretenimento. Produção em massa. Artistas (?) gestados em escritórios comandados por yuppies e fabricados em linhas de montagem dominam a programação. Eles querem ser os mais vendidos... Não fazem questão de tocar seu coração, mas principalmente o seu $$$...
A deusa-besta da axé music, cujo nome não vale a pena declinar, foi feita ubíqua agora que diz ter igualado o feito de Madonna... Já chegou ao topo. O céu não é mais o limite para ela. Natural: o mérito de um artista dentro dos cânones da indústria continua sendo medido unicamente pelo número de discos e Dvds vendidos, não pela relevância ou qualidade do que é produzido. Bem, essa é um lógica perfeitamente justificável quando se quer vender cheeseburgers...
E tome entrevistas de conveniência nos mais diversos canais, resenhas elogiosas em publicações musicais, participações em programas flagrantemente jabazentos ou supostamente respeitáveis! As músicas toniturantes executadas em todas as rádios sem-vergonha que assolam o dial. E, como não bastasse, a vida privada dessas "celebridades" querendo invadir o espaço público em pasquins de fofoca. E tome poeira, muita poeira, provinda de Tvs de LCD, nos ouvidos e nos olhos dos incautos que pretendem comprar o seu Orhan Pamuk ou o seu Charlie Parker em paz numa grande rede como a FNAC!
Nada de novo. Sempre foi assim. O lixo continua a ser imposto sem piedade. Até mesmo velhos críticos do status quo são cooptados e, incoerentes, gravam Acústicos MTV e voltam de braços abertos ao porto seguro das rádios. A propósito, falando em MTV, vale a pena citar Caetano que, disparando há alguns anos atrás, acertou no alvo do futuro sem querer: "Vergonha na cara Emetevê!!!"
A diferença agora é que mesmo com as virulentas estratégias de promoção tradicionalmente praticadas, as vendas de álbuns de vários contratados sedentos em beneficiar-se delas mantêm-se incipientes. Apenas alguns "fenômenos" conseguem se segurar. E não por conta de sua qualidade artística, mas tão somente por uma eventual, inescrupulosa e violentíssima campanha de marketing, expressa em mecanismos freqüentemente ilegítimos. É o caso da já mencionada baiana, metade deusa, metade besta.
Alguns, diante desse panorama lamacento, não muito distante da degenerescência que assola o país nos mais diferentes níveis, trombeteam que a música brasileira está em crise. Tal assertiva está correta apenas em parte. Seria melhor formular assim: a música brasileira do establishment, dos apadrinhados de sempre anda muito mal das pernas dentro do que se propõem (vender a qualquer custo sem outras preocupações mais elevadas). Porém, há vida inteligente longe dos holofotes. Sempre houve. E agora ela está mais acessível do que antes. Isso em grande parte devido aos meios alternativos de divulgação, notadamente a Internet e todas as ferrmentas que lhe são inerentes, assim como também às facilidades tecnológicas de gravar discos, inclusive em estúdios caseiros. É provável que grandes artistas tenham no passado sido relegados ao ostracismo devido à dificuldade em chegar ao consumidor de bens culturais, em razão da inexistência de vias alternativas sólidas. Hoje, pelo menos uma parcela do público que não se contenta com o "fast food nosso de cada dia" que lhe é oferecido, pode realizar um verdadeiro trabalho de peneira e encontrar jóias de valor inestimável. O negócio é revolver a camada espessa de gordura descartável e achar cantores, cantoras e bandas que priorizam o ato de criar, a excelência do que produzem, em detrimento do vale tudo pelo sucesso.
É o caso de Kassin+2 e Mombojó que no último sábado, no Circo Voador, deram uma prova contudente da vitalidade dessa nova música brasileira. Os primeiros, confirmando o que registraram em Futurismo, um dos grandes álbuns de 2007, processam com competência as inspirações trazidas por mestres como João Donato, Marcos Valle, Ed Lincoln, Banda Black Rio, com música latina e até hardcore, criando algo genuinamente criativo e instigante. O Mombojó não ficou atrás e ofereceu uma performance visceral, em que os violões, cavaquinhos e flautas do samba e do choro, além das interferências da música eletrônica, interagem com os clássicos guitarra, baixo e bateria furiosos. São uma pequena amostra, afortunadamente.
É fácil mencionar outros: Cordel do Fogo Encantado, Cidadão Instigado, mundo livre S.A., Nação Zumbi, Gui Boratto, Vanguart, Violins, a "família" Orquestra Imperial, Wado/Fino Coletivo, Hurtmold, Nervoso, Móveis Coloniais de Acaju...Assim como o fora de série Los Hermanos que faz parte do cast de uma major- exceção que confirma a regra. Vale destacar as cenas de Recife, de Goiânia e de outras cidades fora do eixo Rio-São Paulo. Saindo do nicho pop/rock, pontificam Guinga, Yamandú Costa, Hamilton de Holanda, Rômulo Fróes, Marcelo Campello (também violonista do Mombojó) e a nova geração de sambistas sediados na Lapa e adjacências. E os inúmeros artistas da Biscoito Fino, uma das poucas gravadoras respeitáveis atualmente. Todos esses fazem companhia a movimento similar que se desenvolve em âmbito internacional, do qual o representante máximo é o canadense Arcade Fire.
Nenhum comentário:
Postar um comentário