Aí está uma das provas de que é possível fazer cinema acessível sem esquecer a criatividade e a inteligência. Pequena Miss Sunshine é uma comédia dramática ou um drama com toques de comédia, não importa, que conquista o espectador desde o início, já a partir da apresentação dos personagens, Olive, uma garota que quer se candidatar ao prêmio infantil de "Miss Sunshine", e os membros de sua família. Todos com exceção da própria menina, sempre envolta na natural inocência de seus sonhos, e de sua mãe, poderiam ser rotulados como tipos não convencionais. Estariam catalogados como fracassados, segundo o surrado e simplista postulado, tão valorizado pela tradicional sociedade americana e enunciado pelo pai, postulante a guru de auto-ajuda: o mundo está dividido entre "winers" e "losers". Paradoxalmente, caso o princípio pudesse ser aplicado com precisão matemática, ele próprio estaria fadado a sucumbir dentro desse determinismo, pois seus esforços para publicar a sua tese são em vão e as dificuldades financeiras grandes. Na verdade, a sua meta é alçar a sua família à suposta perfeição e felicidade do "american way of life", mesmo que essa vontade invariavelmente não logre êxito. O tio, suicida frustrado e especialista em Proust, desponta como a consciência crítica da família, tendo a função de servir como a antítese do pai obcecado por um lugar no sonho americando. A trupe é completada pelo irmão que fez voto de silêncio e pelo avô junkie. Os persongens são encarnados de forma espetacular por todos os atores e esse é um dos méritos do filme ao lado também das belas tomadas de câmera.
Por uma série de circunstâncias, todos repentinamente vêem-se dentro de uma Kombi amarela para viajar de Albuquerque até Redondo Beach, Califórnia, onde a garota tentará o tão sonhado título de miss. Então, a película revela-se como um "road movie", em que os "outsiders" protagonistas desfilando pela "highways" americanas em seu veículo nada moderno enfrentam decepções, percalços e situações bizarras. Há espaço para uma abordagem bem humorada dos fatos e determinadas passagens são bem engraçadas. No fundo de tudo, sempre paira a pergunta: o que faz uma pessoa vencedora ou perdedora? A pergunta é ainda mais pertinente quando já no concurso e para encanto de seus respectivos pais, garotinhas vestidas e pintadas como adultas, fazem poses, cantam e dançam de modo pré-fabricado objetivando a todo custo ganhar o título de miss. Essas não seriam crianças que agem de modo anti-natural, amputadas da pureza de suas infâncias? Onde residiria a vitória nesse fato? A resposta é dada em conjunto por Olive, que em comparação como as mini-mulheres, suas colegas de disputa, mostra-se como a criança que é, assim como por sua família, especialmente o pai, que ao final da jornada assume-se de fato como é, numa saudável anarquia, subvertendo os cânones da tão artificial competição.
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