segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Saraband

"Saraband" é um filme excepcional, rodado pelo gênio Ingmar Bergman em 2003, que resgata os personagens de "Cenas de um Casamento". Por incrível que pareça, não foi lançado nos cinemas daqui. Saiu em 2006 direto no formato DVD, inclusive com um valioso "making of" no qual podemos ver o mestre em ação.
O diretor optou pela adoção de uma estrutura narrativa teatral, com prólogo, dez atos e epílogo. Partindo dessa proposta, lançou mão de seus habituais primorosos diálogos e limitou a ação a quatro personagens soberbamente interpretados por excepcionais artistas. O resultado é um filme denso e ao mesmo tempo fluente, no qual assuntos espinhosos e relevantes são encarados sem qualquer inibição.
Tudo se inicia com Liv Ullman, intéprete de Marianne, voltada diretamente para a câmera, numa postura confidente, exibindo fotos dos personagens do filme e apresentando-os a partir da exibição de fotografias, como a convidar o espectador para uma jornada pela intimidade de uma família. Nos atos seguintes, a trama calcada em conturbadas relações familiares será desenvolvida.
Marianne, após muitos anos de ausência, reencontra seu ex-marido, Johan, vivido por Erland Josephson. Uma vez separados, cada qual teve outros relacionamentos e novas famílias foram constituídas. A protagonista conhecerá a atual realidade familiar de Johan e será por ela absorvida, assim como nós, os espectadores, em outro nível. Os atos que se sucedem são estruturados de forma a permitir que os personagens interajam sempre em duplas, procedimento narrativo este que desvelará então as misérias e querelas familiares. Permeando todas as ações há a figura ausente e magnética de Anna, cuja morte abalou irreversivelmente tanto o seu marido e sua filha, como também Johan, pai e avô destes, respectivamente. A situação é a deixa para Bergman manipular com precisão temas que sempre lhe foram caros como a questão do vazio da vida diante irreversibilidade da perda/incapacidade do ser humano em lidar com a morte. A traumática perda leva o marido de Anna e filho de Johan, amargo e atormentado diante da impossibilidade de retomar seu amor, a desenvolver uma possessão doentia em relação à filha, a qual, por sua vez, apesar da saudade avassaladora da figura materna, não adotará uma postura imobilista, e será posta à prova para romper o domínio do pai e seguir seu caminho. Num outro extremo, vemos violentos embates verbais entre Johan e o filho, que se odeiam. Bergman concebe as relações familiares como uma ciranda de amor e ódio.
Marianne, dentro desse redemoinho, aparece, a princípio, como uma figura estranha àquele universo: é uma observadora privilegiada dos fatos. No decorrer da película, ao ver-se embrenhada naquela realidade, atua como confortadora de Johan, especialmente na ansiedade que o consome, e da neta deste de quem se aproxima, desenvolvendo uma relação de cumplicidade típica de mãe-filha ou avó-neta. Nesse sentido, a presença de Marianne seria um paliativo para a ausência da figura materna naquele ambiente. Quanto ao filho de Johan, a relação será de repulsão, mesmo porque para este qualquer tipo de conforto terreno é inútil, a não ser a sua desmesurada fixação pela filha. Fora isto, este personagem encara a vida apenas como uma contagem regressiva, na esperança de um futuro reencontro com Anna, o que poderá ser precipitado pela partida da filha.
No final, já de volta à sua rotina e ainda extremamente impactada pela onipresente Anna e por tudo que ela significa para aquelas pessoas, a personagem de Liv Ullman revela-se em sua inteireza, passando a ser o foco principal do filme. É mostrada na condição de mãe, porém como a mãe omissa de uma doente mental internada num sanatório. Ganha ainda mais relevo, assim, outro tema bergmaniano recorrente: a indiferença paterna ou materna em relação a filhos, questão esta já abordada anteriormente em sua obra em filmes como "Através de um Espelho" e "Sonata de Outono". Em Saraband, portanto, a ausência pela morte e a ausência em vida estão lado a lado. No entanto, esta última pode ser reparada e, como vemos no epílogo, é aberta à Marianne a possibilidade de redenção.

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