Um filme que merece o rótulo "cult" é "Martha", dirigido pelo alemão Rainer Werner Fassbinder em 1974, e que ganhou versão em DVD há pouco tempo através da Versátil. A história gira em torno da extrema opressão exercida por um marido sobre sua mulher (Martha). É encenado um jogo de dominação e submissão, temperado com toques de absurdo, humor negro e nonsense. A personagem é tão subjugada que se vê obrigada, por exemplo, a decorar um livro de engenharia civil para agradar ao seu senhor. No final das contas, Martha se torna um arremedo de ser humano, totalmente humilhada e anulada em suas vontades. Fassbinder opta por uma abordagem propositalmente pouco sutil, de forma a explicitar e evidenciar o absurdo das situações. A linguagem simbólica também está presente. As marcas no pescoço da vilipendiada mulher causadas pelo verdugo marido, além de serem uma evidente sinal de propriedade deste, como um ferro que marca o dorso do gado, também não estariam ressaltando a natureza de um vampiro sedento para sugar a vida de sua presa?
A direção é muito refinada. Os movimentos de câmera são atraentes e servem para reforçar as idéias do realizador. O filme traz uma tomada genial, logo no início, quando os protagonistas encontram-se pela primeira vez. A câmera faz um "travelling" inventivo, girando em torno deles, e depois registra cada um seguindo em direções opostas. Lembra a cena do beijo de Yoná Magalhães e Othon Bastos, ao som da "Bachiana n.5" de Villa Lobos, em "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Ambas são de almanaque.
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