Confesso que não sai muito impressionado do cinema, como aconteceu quando assisiti à Santíssima Trindade composta por "Carne Trêmula", "Tudo Sobre Minha Mãe" e "Fale com Ela". No entanto, é uma obra de autor, drigida com maestria e perfeita compreensão do que deve ser o cinema, o que é excelente numa época assolada por filmes sem personalidade. Pode parecer contraditório, mas por outro lado, achei que essas mesmas características autorais contribuem para gerar um certo cansaço já que são repetidas com outra roupagem.
A assinatura "almodovariana" está lá, sempre presente. Percebe-se a coexistência do melodrama mexicano, com o suspense "hitchcockiano" e tiradas engraçadas de personagens não usuais. A trama é rocambolesca, recheada de revelações e reviravoltas, o que certamente é influência dos dramalhões latinos que parecem encantar Almodóvar. Os personagens femininos são o motor da história, a alma do filme. Os homens aparecem, via de regra, como seres sórdidos e desprezíveis e que, por isso, ficam sujeitos a uma justificada (para o diretor) inclemência da vingança do poder feminino. São figuras personalizadas por pais que abusam ou tentam abusar sexualmente das filhas e ocasionam abalos na coesão do universo feminino, chegando iclusive no primeiro caso a separar mãe e filha, interpretadas por Carmen Maura e Penélope Cruz. A primeira, supostamente morta durante um incêndio, "ressuscita" proporcionando um reencontro impossível, quando então ela e a filha conseguem superar os mal-entendidos e desentendimentos passados, chegando à concórdia, restabelecendo o amor perdido. O filme tem muito de autobiográfico, daí porque talvez Almodóvar lance mãe desse artifício dramático, do retorno, do "volver", para tentar sublimar a impossibilitade concreta que lhe aflige de dizer a sua própria mãe, falecida em 1999, o que ficou para ser dito ou de corrigir erros pretéritos. Talvez tenha simplesmente pretendido contornar ou mitigar a negação imposta pela dinâmica da vida aos que perderam entes queridos, entre os quais está incluído, de voltarem a estar diante de suas sagradas presenças e não apenas em face das lembranças que restaram, corporificadas em objetos, roupas, histórias, cheiros e sensações. Dentro de suas prerrogativas artísticas de diretor de cinema, senhor de sua obra, lança mão de um modo de burlar a irreversibilidade da perda. Aliás, a abençoada figura da mãe paira durante toda projeção, seja ela a personagem de Penélope Cruz, uma mãe batalhadora, à moda de Anna Magnani em "Mamma Roma", seja o onipresente "fantasma" de sua mãe em relação a ela e sua irmã ou mesmo a mãe sumida cuja ausência angustia uma das persongens.
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