quinta-feira, 19 de abril de 2007

Kind of Blue. Ouça o disco. Compre o Livro.

Nas últimas duas semanas foram freqüentes os comentários na mídia a respeito do lançamento do livro "Kind of Blue", de Ashley Kahn, que disseca o antológico disco homônimo de Miles Davis. A publicação foi capa de cadernos culturais, colunistas, musicais ou não, saudaram o seu lançamento, e mesmo blogueiros de formação mais roqueira renderam-se a esse que se transformou num verdadeiro acontecimento do mercado editorial. Nada mais justificado.
Acredito que não estamos diante de uma obra que se tornará um best seller, porém o seu lançamento representa o enriquecimento de um nicho literário pobre no Brasil, relativo à publicação de livros musicais, notadamente de jazz. Esse é um dos motivos pelos quais foi gerado o frisson que "Kind of Blue", o livro, que saiu no exterior num distante ano de 2000, tem causado por aqui. Some-se a isso a riqueza do texto de Kahn. Contém informações até então pouco conhecidas e preciosas, na medida em que o acesso às fitas originais das sessões de gravação na Columbia Records foi-lhe garantido, propiciando que os bastidores fossem retratados com fidelidade. Cada música é esquadrinhada magistralmente, uma a uma, revelando inclusive o ambiente que cercou a execução de cada qual. Aí só resta ao leitor tornar-se concomitantemente ouvinte, tocar o cd e perceber todos os detalhes e nuances.

Outro mérito é a abordagem histórica, a contextualização do álbum no tempo. Dentro dessa proposta, o autor encara com propriedade e dados técnicos o modalismo que norteou e permeou toda a obra, culminando com a criação do chamado jazz modal em contraste aos preceitos do bebop. Os protagonistas responsáveis pela realização dessa obra-prima da música do século passado, os gênios Miles Davis e John Coltrane, além dos soberbos Cannonball Adderley (sax alto), Bill Evans (piano), Winton Kelly (piano em "Freddie Freeloader"), Paul Chambers (baixo) e Jimmy Cobb (bateria), também tem seus perfis rascunhados em passagens reveladoras, o que contribui para a familiarização do leitor com as suas personalidades. É possível constatar, assim, a fundamental importância de Evans para a gestação de "Kind of Blue" e sucesso do jazz modal, mesmo não sendo creditado em composições como "Blue in Green", assim como a irresistível escalada de Davis rumo ao sucesso artístico e de público. Muito interessante também a figura de um Coltrane em transição, gestando nessa época de modalismo o passo revolucionário que em seguida viria a dar, impregnando de profunda espiritualidade a sua técnica.
P.s.: Ashley Kahn também é autor de outro livro nos mesmos moldes do aqui abordado sobre outra pedra de toque do jazz, "A Love Supreme" de John Coltrane. Vamos rezar pra que seja lançado também! A propósito, por onde anda a autobiografia de Miles, impossível de ser encontrada atualmente em qualquer livraria?

quarta-feira, 28 de março de 2007

O Cheiro do Ralo

Foi apenas na Bienal do Rio de 2005 que deparei com a obra de Lourenço Mutarelli, apesar das muitas referências anteriores elogiosas ao seu trabalho. Entrei no stand de quadrinhos sem pretensão alguma, sem procurar por nada em especial, já que o meu ponto de contato com esse universo desaparecera no estertores da adolescência, quando deixei de colecionar as seis publicações da Marvel de que gostava (interessados em adquiri-las, por favor, manifestem-se). Porém, após folhear algumas revistas e me impressionar com o universo "sujo" e marginal de Muta, que me fez lembrar o genial (e não menos estranho) Robert Crumb, acabei sendo fisgado mesmo pelo nome daquele livrinho: "O Cheiro do Ralo". Não hesitei. Comprei de imediato. A leitura foi rápida. Narrativa direta, baseada em diálogos, quase uma história em quadrinhos sem quadrinhos, quase um roteiro pronto para ser filmado. Um protagonista misantropo e repugnante, homônimo do autor, compraz-se em humilhar pessoas que, em busca de um trocado, procuram-no para vender objetos, dos mais prosaicos aos mais esdrúxulos. Um anti-herói perseguido pelo cheiro fétido proveniente de seu banheiro e apaixonado por uma... Bunda. O universo eminentemente urbano e outsider, o submundo, a metáfora escancarada do ralo, a abordagem do lado podre da vida e o humor negro subjacente acabam, paradoxalmente, seduzindo o leitor de imediato e fazendo daquela leitura um momento marcante.
Mais ou menos na mesma época, era lançado nos cinemas "Nina", primeiro longa-metragem de Heitor Dália, cineasta pernambucano radicado em São Paulo. O filme traz desenhos fantásticos de Mutarelli, que enriquecem o jogo de contraposições real-imaginário proposto na película, servindo de precioso recurso estético/narrativo. A parceria prosperou e o passo seguinte foi a adaptação para as telas, propulsionada pelo ator e produtor executivo Selton Mello, daquela publicação de nome nada comercial (a captação de recursos sofreu restrições por causa disso). E assim, sem dúvida, o marasmo reinante em nossas telas foi quebrado com a chegada do "Cheiro do Ralo" aos cinemas. Mérito de um consórcio de artistas que não tratam sua arte como mera mercadoria gestada segundo os cânones de estratégias mercadológicas baratas e assumem o risco de propor reflexões relevantes em suas obras, sejam sobre estética ou conteúdo.
A partir do primeiro fotograma, sentimos o desagradável odor, assim como ele é percebido assim que abrimos o livro. Lá está o grotesco Lourenço (embora menos virulento do que achei quando li o livro... enfim, subjetivismos) numa interpretação perfeita de um Selton Mello com sotaque e ares de Zé Dirceu (desculpe, mas nesse ponto a associação entre essa emérita figura da nossa República e o tema "merda" é inevitável). Aliás, o que é aquele seu choro compulsivo no momento enternecedor do encontro com a bunda? Inacreditável...
O elenco de apoio também se destaca, encarnando os tipos urbanos decadentes que freqüentam a loja do protagonista, entre eles a viciada interpretada por uma excelente Silvia Lourenço (de "Contra Todos"). Atenção ao trabalho dela!!! Até Muta desempenha com propriedade o papel de segurança! O filme padece, no entanto, de um mesmo defeito que acomete o livro, isto é, uma circularidade, uma repetição excessiva da situação "Lourenço recebe um cliente e o humilha". No fundo, nada que comprometa. Afinal, o filme, repetindo o que proprociona o livro, constrói com exatidão o perfil de um escroque, fetichista contumaz e coisificador ordinário. Mais atual impossível. O cheiro do ralo está entre e nós e anda se espalhando...

quinta-feira, 15 de março de 2007

Borat

O filme é muito mais do que uma comédia que objetiva arrancar risos desenfreados dos espectadores. É verdade que há momentos em que a platéia se descontrola de tanto rir em situações de humor puramente grosseiro, como na grotesca, certamente escatológica, cena em que Borat, o aloprado repórter vindo do Cazaquistão, e seu fiel escudeiro-produtor atracam-se nus num quarto de hotel. Há também um apelo para o absurdo: tenha-se em mente o Dom Quixote e o Sancho Pança "gauches" e pós-modernos, secundados por um urso pardo, "cavalgando" um carro decrépito pelas estradas da América, abusando de anarquia e iconoclastia.
No entanto, o que realmente mais me impressionou e instigou foi o artifício utilizado para através da "parcela ficção" corporificada na comédia (personagens fictícios, situações pré-concebidas para gerar humor) serem revelados "flashs" do real sonho americano - que bem poderia ser um pesadelo - e do verdadeiro "american way of life". Daí porque pode também ser considerado um eficiente documentário. Assim, por exemplo, o FICTÍCIO jornalista anti-semita, sexista, racista e homófobo, habilmente extrai de alguns de seus entrevistados, que evidentemente acreditavam que seus lamentáveis dizeres ficariam restritos a uma aldeia miserável do Leste Europeu, declarações ESPONTÂNEAS/REAIS de cunho igualmente fascista. É o que acontece no episódio do rodeio e no dos universitários. Nem tudo são risos histéricos, portanto. Em passagens, como estas, o filme ganha um feição de amargor. Borat, o exótico, inoportuno, rude e imbecil habitante do Cazaquistão, ao contrário do que poderia ser imaginado, encontra pontos de contato com os bem-sucedidos, desenvolvidos, em suma "superiores", norte-americanos. Funciona como um espelho que destrói o simulacro, revelando o indesejável.
E a estocada mais virulenta vem quando, sob o pretexto de cantar em um rodeio no Texas (significativo, não?) o hino cazaque traduzido sobre a melodia do hino dos EUA, Borat desvela as entrelinhas do pensamento e do discurso do americano médio, muitas vezes escondidos sob belas palavras e conceitos, evidenciando todo o conservadorismo que acomete aquela nação numa era sob o signo das trevas de Bush.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Chico Buarque no Canecão

Depois da tentativa frustrada de comprar ingressos para o show anterior de Chico Buarque, "As Cidades", de 1998, tudo parecia caminhar para o mesmo desfecho no espetáculo "Carioca". Culpa do arcaico e famigerado Canecão, pródigo em dificultar ao máximo a venda de ingressos para quem não paga inteira e onde os cambistas parecem sentir-se em casa ...
Por sorte, datas extras foram marcadas e finalmente pude assisitir a uma das cada vez mais raras e disputadas apresentações de um dos mais importantes artistas da música brasileira. Não consegui achar qualquer defeito no show. Esse é pra guardar pra sempre na memória! O espetáculo é calcado nas músicas do disco "Carioca" (todas são apresentadas), e então confirma-se o fato de que estas ficam mais atraentes a cada nova audição. São canções que, em alguns casos, podem não gerar uma empatia imediata com o ouvinte. Porém, são mais complexas harmonicamente, possuindo nuances, sutilezas, que vão sendo desveladas aos poucos, mostrando, ao final do processo de ambientação, toda sua força. Ao vivo, são belíssimas. "Imagina", então, composta por Tom Jobim, e cantada em dueto com Bia Paes Leme, é pra deixar qualquer um flutuando. Destacam-se também o moderno repente-rap "Ode aos Ratos", além de "Subúrbio".
Um capítulo à parte é a banda de apoio. Um verdadeiro "dream team" de músicos... E ainda por cima entrosados pelos muitos shows da turnê. Covardia... Chico soube fazer-se acompanhar muito bem. Lado a lado, vemos na bateria o mítico Wilson das Neves, que ainda canta desenvolto com Chico a parceria "Grande Hotel", Jorge Helder (autor da intrincada e bela "Bolero Blues"), no baixo, Luiz Cláudio Ramos, no violão e guitarra, Chico Batera, na explosiva percussão... Sem falar do ótimo cantor que Chico é. Longe de virtuosismos, porém extremamente seguro em suas interpretações.
Entremeadas com a nova produção, somos brindados com clássicos como "O Futebol", "As Vitrines", "Futuros Amantes", "Eu te Amo", "Quem te viu, quem te vê" e a maravilhosa "João e Maria", de Chico e Sivuca, oriunda de "O Grande Circo Místico". Estas duas últimas dão um fecho magistral ao show, com a platéia toda de pé, extasiada e rendida ao talento de um Chico nitidamente feliz, que durante todo tempo exibe um carisma magnético sem precisar ou querer fazer qualquer esforço. Depois desse fecho, só resta sair, com a alma revitalizada, tendo ao fundo o "Trenzinho do Caipira", composta por outro gênio, Heitor Villa-Lobos...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Grandes Discos de 2006 ouvidos apenas em 2007 (Parte II)

"Night Ripper"- Girl Talk.
Colagem eletrônica, nos moldes das realizadas pelo "2 Many Dj's". Contém "samples" de uma infinidade de músicas, sucessos ou nem tanto, de artistas díspares, como "Pixies", "Steely Dan", "The Verve" e "Oasis". É divertido tentar reconhecer essas referências, embora depois de algum tempo a brincadeira acabe ficando cansativa. Por isso, não se pode dizer que seja propriamente um grande álbum.
"Boys and Girls in America"- The Hold Steady.
Guitarra, baixo e bateria vigorosos. Um ou outro eventual teclado, como pano de fundo. Nada de experimentalismos. Rock básico e eficiente, sem firulas e de sotaque sulista, embora a banda seja de Nova York. O brilhante vocalista, Craig Finn, parece ter a voz calejada por litros de whisky. Em alguns momentos lembra "Black Crowes" e "Kings of Leon", além dos pais do gênero, "Lynyrd Skynyrd" e "Allman Brothers". Isso sem falar de Bruce Springsteen...
"Writer's Block"- Peter Bjorn and John.
Excelente álbum da banda sueca. Sem dúvida, um dos melhores de 2006. Ambientação "indie" em que dissonâncias de guitarra convivem com perfeição com melodias assimiláveis e harmonias envolventes. Destaque para "Objects of my affection" (parece um "Wedding Present" revivido), "Young Folks" (assobio e seção rítmica contagiantes) e "Start to Melt".
"Silent Shout"- The Knife.
Duo eletrônico sueco, formado por irmão e irmã, bastante influenciado, como não poderia deixar de ser, por "Kraftwerk", sem deixar de lado elementos do "synth pop", estilo anos 80, o que faz com que o disco seja, ao mesmo tempo, complexo e acessível, sofisticado e descomplicado . A faixa de abertura homônima é sensacional: sintetizadores evoluem com um grave contagioso que pontua toda a música. Foi eleito álbum do ano pelo respeitado site "Pitchfork".

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Grandes discos de 2006 ouvidos apenas em 2007 (Parte I)

"The Crane Wife"- The Decemberists.
Nítidas influências de folk e rock progressivo. Em algumas faixas soa como o R.E.M dos primórdios, em outras parece uma banda progressiva típica, como Jethro Tull. Por outro lado, a vibrante música "The Perfect Crime #2" é um cruzamento da "new wave", estilo "Talking Heads", com a faceta mais "funky" dos "Stones".

"Ballad of the Broken Seas".
União inusitada entre Mark Lanegan (ex-Screaming Trees e colaborador bissexto do Queens of the Stone Age) e Isobel Campbell (do Belle and Sebastian). O álbum aposta, com sucesso, no contraste entre a rispidez de Lanegan e a doçura de Isobel. Climas sombrios combinados com momentos de enlevo.

"Brightblack Morning Light"- Idem. Quase que totalmente instrumental e tributário à Black Music, notadamente à chamada "Blaxploitation". Elementos eletrônicos combinados com instrumentos de sopro e percussão. As músicas andam sempre lentas e viajantes, criando um ambiente lisérgico.

"We are the Pipettes"- The Pipettes.
A palavra chave aqui é entretenimento. As três inglesas promovem uma divertida e despretensiosa reformatação do pop de grupos vocais femininos dos anos 60. Excelente produção em que os vocais bem coordenados e as orquestrações envolventes ganham destaque. Se você quer algo na linha Spice Girls, Pussycat Dolls ou congêneres, passe longe!

"The Trials of Van Occupanther"- Midlake.
Mais um da linhagem folk. Influenciado por todos os grandes nomes dessa vertente musical. A brilhante faixa de abertura, "Roscoe", lembra muito o Fleetwood Mac dos bons tempos, fase "Rumours". Muitos vocais harmônicos, flautas, violões e pianos.

"Everything All the Time"- Band of Horses.
Banda flagrantemente calcada na sonoridade do gênio Neil Young (até o falsete está presente). Mais uma prova de que este, sem dúvida, é um dos artistas mais influentes da história do rock As guitarras sempre interagem e duelam, criando viagens ao mesmo tempo harmônicas e furiosas. Em outras passagens o clima é acústico. Encontra paralelo com "My Morning Jacket".

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Mutantes no Vivo Rio

As ações são comandadas por Sérgio Dias. Ele é o frontman. É o protagonista, o porta-voz e gestor da banda, que ainda esbanja talento tocando guitarra com a conhecida competência.
Arnaldo Baptista está claramente fora de sintonia. Em algumas canções quase é atropelado pela banda. Tem os olhos sempre atentos ao monitor instalado à sua frente. Estaria lendo as letras? As silibrinas do tempo definitivamente não o favoreceram. Mas lá está o iluminado criador das dezenas de músicas geniais espalhadas pelos discos dos Mutantes. Isso sem falar das canções de seu álbum solo, "Lóki?", um dos mais fundamentais registros do rock nacional.
Zélia Duncan contenta-se em secundar os irmãos. Coloca-se num reverente segundo plano. Está discreta e longe de pretender emular uma nova Rita Lee. Dinho, o baterista, faz a sua parte sem muito brilho.
Além deles, o palco está povoado de outros músicos contratados. Apesar da competência de todos, tal fato contribui para descarecterizar a banda. E essa descarecterização, agravada pela ausência de Rita Lee e de Liminha, e pela má forma de Arnaldo e Dinho, é o ponto negativo desse retorno. Assim, em determinados momentos o show parece um "auto-tributo". São os Mutantes homenageando a grande banda do passado, os Mutantes, ou seja, eles mesmos. A grosso modo, por vezes surge um climão de show homenagem, no estilo do que o Multishow produziu para Raul Seixas.
Porém, apesar de tudo, como admirador imparcial dos Mutantes, devo reconhecer que os aspectos positivos suplantam os negativos. A verdade é que show foi muito bom! Paradoxalmente, considerando o que disse antes, admito também que a banda de apoio oferece um excelente suporte. As músicas são executadas com brilhantismo e fidelidade, respeitando a sonoridade do grupo. Em algumas passagens, como em "Dia 36" e "Ave Lúcifer" a psicodelia está lá, restabelecida com exatidão. E teve muito mais, como as memoráveis execuções do proto-hardcore "A Hora e a Vez do Cabelo Nascer", das plácidas "Fuga n. 2" e "Le Premier Bonheur du Jour" e da bem-humorada "El Justiciero", em que os "comparsas" Chávez e Lula entram na roda de ironias. Enfim, o manancial de inúmeros clássicos, aí incluídos "Ando Meio Desligado" (cantada em português por imposição da platéia), "Baby", "Panis et Circensis", "Balada do Louco", entre outros, é despejado sobre o público que empolgado, pede em uníssono, mas em vão, por mais alguns minutos de espetáculo.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Caetano no Morro da Urca

Hordas heterogêneas lotavam o bondinho para assisitir ao show de Caetano no Morro da Urca. Havia os representantes do momento seminal de sua carreira, desfilando os seus visuais Anos Setenta, na modalidade "típica" ou "atualizada". Outros, vestindo inadequados paletós, provavelmente rendiam homenagens à infeliz fase Fina Estampa. Até mesmo os aficionados pela vertente brega caetânica estavam lá, provavelmente indóceis para ouvir aquela versão da música do Peninha. Enquanto isso, os apreciadores e conhecedores apenas de sua faceta radiofônica das "light" FM's esperavam por algo na linha "Você é Linda" . Além disso, no anfiteatro conviviam pretensas encarnações de meninos do rio e tigresas com turistas estrangeiros perdidos e senhoras na faixa dos 70.
Quanto a mim, já estaria contente em ver o Caetano musicalmente rejuvenescido que se ouve no sensacional "Cê", e presenciá-lo executando alguns dos clássicos do imprescindível "Transa". Será que seria pedir muito que ele tocasse a cartática "Triste Bahia" feita sobre poema de Gregório de Matos? Foi. Mas fiquei contente em ouvir "Nine out of Ten" e a soberba "You Don't Know Me" com suas citações, especialmente à "Reza", de Edu Lobo. Laia Ladana Sabatana Ave Maria!!. E o que falar de "Como Dois e Dois", que levou a platéia ao arrebatamento? E a incrível última música, uma "cover" de Jorge Ben, que fechando apoteoticamente o espetáculo, oferece uma samba-jazz-rock furioso e inebriante?
No mais, Caetano desfila praticamente todas as músicas de seu último álbum, com exceção (graças a Deus!) daquela patética em que emula um português em seu "estou-me a vir" incessante. O que vemos no palco é um artista renovado, extremamente estimulado com sua música, talvez pela revitalizadora injeção de hormônios em ebulição de "Cê". O agora "rocker" Caetano é acompanhado por uma excelente banda básica. Guitarra, baixo, bateria e um eventual teclado "Rhodes", tocados com muita competência, às vezes com sutileza, às vezes com fúria. Isso tudo aliado à habitual excelência de canto e de interpretação. Gostaria de ter ouvido apenas um som ainda mais alto, com ainda mais microfonias e "digressões guitarrísticas" em músicas enérgicas como "Rocks" e "Odeio". Mas a verdade é a seguinte: o ano musical começou em altíssimo estilo!

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

E por falar em Rio...

Vocês, que acessam incessantemente esse blog (em tempo: graças ao número recorde de acessos já estou em negociações com grandes corporações multinacionais interessadas em divulgar os seus produtos por aqui, muito obrigado a todos!) e adoram o Rio, estão convocados a escolher o Cristo Redentor como uma das sete maravilhas contemporâneas do mundo. Basta acessar o sítio da New 7 Wonders (www.new7wonders.com). Agora vai! Com a ajuda desse espaço perdido no limbo ciberespacial, certamente venceremos!

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Carioquismo Crítico

É fato. Não há como negar. Nossa cidade, Rio de Janeiro, chegou ou está perto do fundo do poço. As ondas de violência são intermitentes. As mais diversas máfias (tráfico de drogas, caça-níqueis, bingos, pirataria, contrabando) atuam por aqui com a complacência (e/ou participação?- pergunta cândida) do Poder Público, assaltado por anos de desgovernos que culminaram com o casalzinho recentemente defenestrado, expurgado, extirpado, expelido, vomitado. Parelalamente, contaminados por esse ambiente de desrespeito ao Estado de Direito, setores da população, dispersos geograficamente e em diversas classes sociais, julgam-se autorizados a praticar atos de desrespeito às leis, às instituições e ao próximo, sendo exemplo significativo disso a selva que é o trânsito da cidade atualmente.
É verdade também, como tenho constatado, que muitos moradores de outros muncípios, não conseguem disfarçar uma certa satisfação com todos os tristes problemas enfrentados pelos cariocas. As piadinhas de mau gosto estão sempre prontas na ponta da língua. Tal comportamento é de uma insensibilidade barata, que mal disfarça a vontade de "ver o circo pegar fogo" por muito mais tempo... Esquecem que o Rio é o referencial do Brasil em qualquer ponto do planeta. Para o bem ou para o mal. Fatos negativos que envolvem a cidade atingem mortalmente o país.
O Rio, imerso em sua beleza natural ímpar, é uma cidade tão diferenciada, que mesmo a sua decadência é peculiar. Qual cidade tão gravemente abalada pela violência é capaz, apesar de tudo, de abrigar as grandes manifestações artísiticas e culturais (exposições, festivais de música, teatro e cinema) a que temos acesso? Por que tantos intelectuais, pensadores, músicos e poetas continuam residindo aqui, como lembrou Arnaldo Bloch em sua última coluna? Por que o Rio sediará uma competição internacional do porte dos Jogos Panamericanos? Por que vemos tantos carros com placas de cidades como São Paulo e Belo Horizonte circulando por aqui nos feriados?
Portanto, vamos encarar os fatos, sim, e colocar o "dedo na ferida". O momento é tenebroso e alguma coisa tem que ser feita (e assim será). Porém, por favor, bufões de plantão e urubus que se aproximam depois do desastre pra conseguir um naco de carniça, reflitam um pouco e aprendam: ao tripudiar o Rio de Janeiro estarão autodepreciando-se.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Contagem Progressiva

Depois da cartática contagem regressiva de fim de ano, saudada por Tutty Vasquez, João Ximenes Braga e pelo fantástico Blog Julunar, estamos livres do catastrófico governo de Garoti...oops...Rosinha. Vade retro!!!! Ela e seus asseclas, liderados pelo Capitão Bolinha, estão definitivamente sepultados. Esses mortos-vivos não voltam mais! Talvez consigam algum brilhareco político em sua terra natal, a mundialmente conhecida Terra do Chuvisco. Mas aqui no Rio não!!! Muito menos no Brasil!!! As pretensões desses políticos torpes e de mentalidade tacanha ficarão restritas às paróquias das quais são originários. Vão fazer política de condomínio, ou na melhor das hipóteses, de associação de moradores!!!
Finda a contagem regressiva, cabe inciar uma CONTAGEM PROGRESSIVA para que o atual governador, em coordenação com o até agora omisso Governo Federal e com o entediado prefeitinho desse Município (alô mestre dos factóides, a responsabilidade é sua também!), implemente JÁ, para ontem, medidas emergenciais e efetivas para livrar a cidade da nova onda de caos. Os discursos de posse e as declarações de ontem foram todos muito bonitos e geraram esperanças (pelo menos em mim), mas o cronômetro já foi acionado. Até agora nada!!! E já estamos no dia 02 de janeiro de 2007!!! "Ôtoridades", não façam que minha contagem de progressiva se degenere em regressiva!!!

Mais listas

Já está disponível no sítio www.criticos.com.br a respectiva lista de melhores filmes de 2006, além da divulgada pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Vale a pena conferir.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Um filme "cult"

Um filme que merece o rótulo "cult" é "Martha", dirigido pelo alemão Rainer Werner Fassbinder em 1974, e que ganhou versão em DVD há pouco tempo através da Versátil. A história gira em torno da extrema opressão exercida por um marido sobre sua mulher (Martha). É encenado um jogo de dominação e submissão, temperado com toques de absurdo, humor negro e nonsense. A personagem é tão subjugada que se vê obrigada, por exemplo, a decorar um livro de engenharia civil para agradar ao seu senhor. No final das contas, Martha se torna um arremedo de ser humano, totalmente humilhada e anulada em suas vontades. Fassbinder opta por uma abordagem propositalmente pouco sutil, de forma a explicitar e evidenciar o absurdo das situações. A linguagem simbólica também está presente. As marcas no pescoço da vilipendiada mulher causadas pelo verdugo marido, além de serem uma evidente sinal de propriedade deste, como um ferro que marca o dorso do gado, também não estariam ressaltando a natureza de um vampiro sedento para sugar a vida de sua presa?
A direção é muito refinada. Os movimentos de câmera são atraentes e servem para reforçar as idéias do realizador. O filme traz uma tomada genial, logo no início, quando os protagonistas encontram-se pela primeira vez. A câmera faz um "travelling" inventivo, girando em torno deles, e depois registra cada um seguindo em direções opostas. Lembra a cena do beijo de Yoná Magalhães e Othon Bastos, ao som da "Bachiana n.5" de Villa Lobos, em "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Ambas são de almanaque.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Música da Semana (III)

"SPIRIT ON THE WATER"- BOB DYLAN

É a melhor faixa do excelente álbum "Modern Times". Traz durante seus quase oito minutos um Dylan relaxado, quase "cool". O arranjo simples, porém envolvente, é marcado pela fluência de uma guitarra "jazzy".

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Melhores Filmes de 2006

1) "SARABAND" - INGMAR BERGMAN
2) "MATCH POINT"- WOODY ALLEN
3) "PEQUENA MISS SUNSHINE" - JONATHAN DAYTON, VALERIE FARIS
4) "BOA NOITE E BOA SORTE" - GEORGE CLOONEY
5) "VOLVER" - PEDRO ALMODÓVAR
6) "O PLANO PERFEITO" - SPIKE LEE
7) "2046" - WONG KAR-WAI
8) "O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS" - CAO HAMBURGER
9) "O CÉU DE SUELY" - KARIM AÏNOUZ
10) "VÔO 93" - PAUL GREENGRASS

* Foram considerados os filmes lançados no Brasil em 2006 nos cinemas ou diretamente no formato DVD.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Saraband

"Saraband" é um filme excepcional, rodado pelo gênio Ingmar Bergman em 2003, que resgata os personagens de "Cenas de um Casamento". Por incrível que pareça, não foi lançado nos cinemas daqui. Saiu em 2006 direto no formato DVD, inclusive com um valioso "making of" no qual podemos ver o mestre em ação.
O diretor optou pela adoção de uma estrutura narrativa teatral, com prólogo, dez atos e epílogo. Partindo dessa proposta, lançou mão de seus habituais primorosos diálogos e limitou a ação a quatro personagens soberbamente interpretados por excepcionais artistas. O resultado é um filme denso e ao mesmo tempo fluente, no qual assuntos espinhosos e relevantes são encarados sem qualquer inibição.
Tudo se inicia com Liv Ullman, intéprete de Marianne, voltada diretamente para a câmera, numa postura confidente, exibindo fotos dos personagens do filme e apresentando-os a partir da exibição de fotografias, como a convidar o espectador para uma jornada pela intimidade de uma família. Nos atos seguintes, a trama calcada em conturbadas relações familiares será desenvolvida.
Marianne, após muitos anos de ausência, reencontra seu ex-marido, Johan, vivido por Erland Josephson. Uma vez separados, cada qual teve outros relacionamentos e novas famílias foram constituídas. A protagonista conhecerá a atual realidade familiar de Johan e será por ela absorvida, assim como nós, os espectadores, em outro nível. Os atos que se sucedem são estruturados de forma a permitir que os personagens interajam sempre em duplas, procedimento narrativo este que desvelará então as misérias e querelas familiares. Permeando todas as ações há a figura ausente e magnética de Anna, cuja morte abalou irreversivelmente tanto o seu marido e sua filha, como também Johan, pai e avô destes, respectivamente. A situação é a deixa para Bergman manipular com precisão temas que sempre lhe foram caros como a questão do vazio da vida diante irreversibilidade da perda/incapacidade do ser humano em lidar com a morte. A traumática perda leva o marido de Anna e filho de Johan, amargo e atormentado diante da impossibilidade de retomar seu amor, a desenvolver uma possessão doentia em relação à filha, a qual, por sua vez, apesar da saudade avassaladora da figura materna, não adotará uma postura imobilista, e será posta à prova para romper o domínio do pai e seguir seu caminho. Num outro extremo, vemos violentos embates verbais entre Johan e o filho, que se odeiam. Bergman concebe as relações familiares como uma ciranda de amor e ódio.
Marianne, dentro desse redemoinho, aparece, a princípio, como uma figura estranha àquele universo: é uma observadora privilegiada dos fatos. No decorrer da película, ao ver-se embrenhada naquela realidade, atua como confortadora de Johan, especialmente na ansiedade que o consome, e da neta deste de quem se aproxima, desenvolvendo uma relação de cumplicidade típica de mãe-filha ou avó-neta. Nesse sentido, a presença de Marianne seria um paliativo para a ausência da figura materna naquele ambiente. Quanto ao filho de Johan, a relação será de repulsão, mesmo porque para este qualquer tipo de conforto terreno é inútil, a não ser a sua desmesurada fixação pela filha. Fora isto, este personagem encara a vida apenas como uma contagem regressiva, na esperança de um futuro reencontro com Anna, o que poderá ser precipitado pela partida da filha.
No final, já de volta à sua rotina e ainda extremamente impactada pela onipresente Anna e por tudo que ela significa para aquelas pessoas, a personagem de Liv Ullman revela-se em sua inteireza, passando a ser o foco principal do filme. É mostrada na condição de mãe, porém como a mãe omissa de uma doente mental internada num sanatório. Ganha ainda mais relevo, assim, outro tema bergmaniano recorrente: a indiferença paterna ou materna em relação a filhos, questão esta já abordada anteriormente em sua obra em filmes como "Através de um Espelho" e "Sonata de Outono". Em Saraband, portanto, a ausência pela morte e a ausência em vida estão lado a lado. No entanto, esta última pode ser reparada e, como vemos no epílogo, é aberta à Marianne a possibilidade de redenção.

domingo, 17 de dezembro de 2006

Melhores Discos Brasileiros de 2006

1) "CÊ"- CAETANO VELOSO
2) "GIL LUMINOSO"- GILBERTO GIL
3) "HOMEM-ESPUMA"- MOMBOJÓ
4) "AMENDOEIRA"- BEBETO CASTILHO
5) "CÉU"- CÉU
6) "UNIVERSO AO MEU REDOR"- MARISA MONTE
7) "CAÇUÁ"- NICOLAS KRASSIK
8) "KAVITA 1"- MARIANA AYDAR
9) "CARIOCA"- CHICO BUARQUE
10) "INFINITO PARTICULAR"- MARISA MONTE

Ronaldinho Gaúcho???

A vitória do Internacional sobre o Barcelona, num jogo sofrível, que me lembrou as partidinhas da Copa da Alemanha 2006, teve pelo menos a utilidade de comprovar que Ronaldino Gaúcho não é jogador pra decisões. É bom lembrar que futebol deve agregar a competição à arte. Não contem com ele numa partida decisiva e amarrada como a de hoje, com o time adversário jogando fechado e buscando achar um gol no contra-ataque. A omissão será certa. É a repetição do que aconteceu na Copa desse ano e em outros jogos decisivos do Barcelona, quando foi excessivamente discreto e não assumiu o comando do jogo como faria um dito melhor jogador de futebol do mundo. Quanta diferença entre sua postura e a dos reais mitos do futebol (Pelé, Garrincha, Romário, Zidane, Maradona, Beckenbauer e outros)...
Em resumo: o negócio é apreciar a sua inegável habilidade e suas jogadas de exceção em partidas mais descompromissados e de menor responsabilidade. Talvez nos comerciais da Nike, sua fiel patrocinadora, ou mesmo em futuras apresentações do Cirque du Soleil, que deveria contratá-lo... Vamos encarar Ronaldinho Gáucho como ele é! Um ótimo jogador, que ainda não atingiu o Olimpo do futebol... Chega de marketing massivo, manipulador e desonesto! Chega de marra!
Em tempo: ainda há tempo pra que nosso jogador confirme tudo aquilo que dizem que é, mas que DE FATO NÃO É AINDA . Talento ele tem.

MELHORES DISCOS POP-ROCK INTERNACIONAL 2006

1) "RETURN TO COOKIE MOUNTAIN"- TV ON THE RADIO
2) "RATHER RIPPED"- SONIC YOUTH
3) "MODERN TIMES"- BOB DYLAN
4) "BROKEN BOY SOLDIERS"- THE RACOUNTERS
5) "WHATEVER PEOPLE SAY I AM, THAT'S WHAT I'M NOT"-ARCTIC MONKEYS
6) "THE GREATEST"- CAT POWER
7) "ST. ELSEWHERE"- GNARLS BARKLEY
8) "THE LIFE PURSUIT"- BELLE AND SEBASTIAN
9) "BEGIN TO HOPE"-REGINA SPEKTOR
10) "MORPH THE CAT"- DONALD FAGEN
11) "THE ERASER"- THOM YORKE

Melhores Shows de 2006

1) FRANZ FERDINAND (CIRCO VOADOR)
2) AHMAD JAMAL (TIM FESTIVAL)
3) HERBIE HANCOCK (TIM FESTIVAL)
4) TV ON THE RADIO (TIM FESTIVAL)
5) FRANZ FERDINAND (FUNDIÇÃO PROGRESSO)
5) CÉU (TIM FESTIVAL)
6) MARISA MONTE (CLARO HALL)
7) MOMBOJÓ (TIM FESTIVAL)
8) STEFANO BOLANI (TIM FESTIVAL)
9) NEW ORDER (VIVO RIO)
10) ECHO AND THE BUNNYMEN (CLARO HALL)

sábado, 16 de dezembro de 2006

Música da Semana (II)

"LIVED IN BARS"- CAT POWER


Essa linda balada integra o disco "The Greatest", lançado por Cat Power em 2006 (inédito no Brasil). A interpretação é segura e intensa, e a canção soa diferente do que a artista normalmente faz, devido à manipulação de elementos da "música de raiz" norte-americana. A sonoridade remete ao country e ao rhythm'n'blues. Vale destacar o uso de piano, trumpete e o os interessantes "backing vocals" do fecho da música.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Um País sem Passado

No filme alemão "Uma Cidade Sem Passado" (The Nasty Girl), dirigido por Michael Veroheven, a pesquisadora Sonya, interpretada por Lena Stolze, decide participar de um concurso cujo tema é "Qual o papel de sua cidade natal durante o Terceiro Reich?". A protagonista, partindo dessa proposta, embrenha-se na pequena e simpática cidade em que nasceu para realizar pesquisas e tentar desvendar como funcionava a respectiva comunidade durante o nazismo. As revelações que obtém são duras: vários daqueles distintos senhores e senhoras, muito bem inseridos no convívio social e que a princípio acolheram-na tão bem, tinham de forma mais ou menos intensa colaborado ou legitimado o regime nazista. O esforço de Sonya acaba fazendo com que aquela realidade fabricada comece a ruir, trazendo à tona fatos pretéritos desagradáveis e inconvenientes, isto é, a verdade. Por ter abalado o arcabouço daquela existência de fachada, nossa protagonista acaba sofrendo sanções sociais.
Tudo isso para dizer que o passado mal enterrado acaba sempre voltando. O acerto de contas deve ser sempre inevitável. Atos abomináveis praticados por regimes de exceção, tais como torturas, homicídios e restrições de direitos e garantias individuais, não podem ser esquecidos simplesmente porque a ditadura não mais exerce o poder. A mentalidade de "passar uma borracha em tudo e seguir em fente" pode ser muito conveniente para alguns, mas tripudia a verdade. O passado de trevas tem que ser encarado, pois só assim traumas e feridas não cicatrizadas, enterrados puramente para atender a conveniências políticas, serão superados. Os autocratas violadores contumazes de direitos humanos devem ser punidos, valendo lembrar que os crimes que eles e seus comandados cometeram são imprescritíveis em razão de sua natureza.
Os bons exemplos vêm de países vizinhos. A Argentina busca de alguma forma exorcizar o passado negro dos anos de chumbo. Sua Lei de Anistia foi revogada em 2005, o que propiciou a instauração de processos contra vários participantes da ditadura (1976-1983). O sanguinário ditador Jorge Videla atualmente cumpre prisão domiciliar. Além disso, os arquivos secretos da ditadura foram abertos e o acesso irrestrito aos mesmos assegurado. No Chile, várias iniciativas foram relizadas, ainda que frustradas, visando à efetiva punição de uma das figuras mais nefastas da história recente, o general Pinochet, responsável pela morte de milhares de dissidentes políticos, entre eles alguns brasileiros. A Lei de Anistia chilena também é questionada, existindo um movimento pela sua revogação.
No Brasil, nossos ditadores morreram sem que ao menos tivessem sido incomodados com processos, ao contrário de seus pares do Cone Sul, colegas de Operação Condor. Certamente, colaboradores, torturadores e homicidas do período ditatorial estão impunes entre nós, muitos deles gozando de boa reputação e prestígio social. Todos sob o manto da chamada Lei de Anistia (Lei 6.683/79), cuja revogação defendo. Sei que é medida polêmica e seria bombardeada por setores retrógrados. A subseqüente punição dos que estavam sob seu abrigo terá questionamentos jurídicos inevitáveis. No entanto, considero que a revogação seja uma medida a ser pensada seriamente. Há entendimentos jurídicos consistentes nesse sentido, como o do eminente jurista Fabio Konder Comparato que considera que tal lei foi criada casuísticamente para proteger os militares violadores de direitos humanos, sendo certo que a tortura é crime imprescritível desde a ratificação pelo Brasil em 1992 da Convenção Americanda de Direitos Humanos de 1969.
Os arquivos das ditaduras brasileiras também devem ser abertos em sua totalidade de forma irrestrita, proporcionando o pleno acesso do povo aos seus conteúdos. A Lei11.111/2005 dá apenas um passo tímido em relação à disponibilização desses documentos. Outros extremamente relevantes, tidos como sigilosos, ainda não estão disponíveis e terão seu conteúdo revelado somente daqui a 30 anos.
Para que o processo de encontro como nosso passado seja agilizado, cabe à nossa tão acomodada sociedade atuar, a exemplo da personagem do filme, na busca incessante pela verdade, mesmo que ela seja dolorida e gere fissuras. Caso contrário, o Brasil estará fadado a ser um país sem passado.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Discos de 2006

Está a aberta a temporada de listas de melhores discos do ano. No site da Metacritic estão disponibilizados, além de seu próprio rank, os de revistas como NME, Mojo, Uncut e Q. Os maiores destaques foram Bob Dylan e Arctic Monkeys. É só conferir no link http://www.metacritic.com/music/bests/2006.shtml.
Outro site que publicou sua lista foi o The Music Box (http://www.musicbox-online.com/2006.html). Deu Bob Dylan, de novo.
Agora, basta aguardar pelas listas da Rolling Stone e do site Pitchfork.
Esqueci... A minha tão esperada (?????!!!!) lista também também sai em breve.

Que Viva Chile!

Parabéns Chile, por esse grande momento histórico! E que ironia... O ditador assassino foi tragado pelo ralo no Dia Internacional dos Direitos Humanos.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Volver

Confesso que não sai muito impressionado do cinema, como aconteceu quando assisiti à Santíssima Trindade composta por "Carne Trêmula", "Tudo Sobre Minha Mãe" e "Fale com Ela". No entanto, é uma obra de autor, drigida com maestria e perfeita compreensão do que deve ser o cinema, o que é excelente numa época assolada por filmes sem personalidade. Pode parecer contraditório, mas por outro lado, achei que essas mesmas características autorais contribuem para gerar um certo cansaço já que são repetidas com outra roupagem.
A assinatura "almodovariana" está lá, sempre presente. Percebe-se a coexistência do melodrama mexicano, com o suspense "hitchcockiano" e tiradas engraçadas de personagens não usuais. A trama é rocambolesca, recheada de revelações e reviravoltas, o que certamente é influência dos dramalhões latinos que parecem encantar Almodóvar. Os personagens femininos são o motor da história, a alma do filme. Os homens aparecem, via de regra, como seres sórdidos e desprezíveis e que, por isso, ficam sujeitos a uma justificada (para o diretor) inclemência da vingança do poder feminino. São figuras personalizadas por pais que abusam ou tentam abusar sexualmente das filhas e ocasionam abalos na coesão do universo feminino, chegando iclusive no primeiro caso a separar mãe e filha, interpretadas por Carmen Maura e Penélope Cruz. A primeira, supostamente morta durante um incêndio, "ressuscita" proporcionando um reencontro impossível, quando então ela e a filha conseguem superar os mal-entendidos e desentendimentos passados, chegando à concórdia, restabelecendo o amor perdido. O filme tem muito de autobiográfico, daí porque talvez Almodóvar lance mãe desse artifício dramático, do retorno, do "volver", para tentar sublimar a impossibilitade concreta que lhe aflige de dizer a sua própria mãe, falecida em 1999, o que ficou para ser dito ou de corrigir erros pretéritos. Talvez tenha simplesmente pretendido contornar ou mitigar a negação imposta pela dinâmica da vida aos que perderam entes queridos, entre os quais está incluído, de voltarem a estar diante de suas sagradas presenças e não apenas em face das lembranças que restaram, corporificadas em objetos, roupas, histórias, cheiros e sensações. Dentro de suas prerrogativas artísticas de diretor de cinema, senhor de sua obra, lança mão de um modo de burlar a irreversibilidade da perda. Aliás, a abençoada figura da mãe paira durante toda projeção, seja ela a personagem de Penélope Cruz, uma mãe batalhadora, à moda de Anna Magnani em "Mamma Roma", seja o onipresente "fantasma" de sua mãe em relação a ela e sua irmã ou mesmo a mãe sumida cuja ausência angustia uma das persongens.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

É Sagaaaaaatibaaaa!!!

Comovente a homenagem em forma de canção de Seu Jorge à cachaça Sagatiba! Há muito tempo não vejo manifestação artística tão espontânea! Estou impressionado com o desprendimento de nosso superstar! A pérola da MPB já está em alta rotação na Oi Fm, cujos programadores convenceram-se de que estavam diante de uma obra de exceção. Pelo que li, o ilustre cantor e ator, em momento de transcendental iluminação artística, resolveu homenagear a bebida, notória não tanto por sua qualidade, mas sim pelas agressivas estratégias de publicidade que a cercam. Observe que o cara é tão requintado que, num esforço etimológico, chega a explicar na letra a origem da palavra sagatiba.
Agora, o exemplar Seu Jorge trocou de refrão: de "Eu Não Seeeiiiiii Paraaaaarrr de te Olhaaaarrrrrr" para "É Sagaaaatibbbbbaaaa!!!".

Música da Semana (I)

"THIS IS HARDCORE"- PULP

Não sou grande conhecedor do Pulp. A música em questão não é nova e pode ser encontrada no disco homônimo de 1998. Prometo me aprofundar na banda depois de ver o clip, também sensacional e que complementa a música com perfeição. O som é absolutamente climático, soturno e remete ao cinema. Na mesma música convivem notas de piano, cordas, trumpete, guitarras que se tornam furiosas e um vocal desesperado.

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Pequena Miss Sunshine

Aí está uma das provas de que é possível fazer cinema acessível sem esquecer a criatividade e a inteligência. Pequena Miss Sunshine é uma comédia dramática ou um drama com toques de comédia, não importa, que conquista o espectador desde o início, já a partir da apresentação dos personagens, Olive, uma garota que quer se candidatar ao prêmio infantil de "Miss Sunshine", e os membros de sua família. Todos com exceção da própria menina, sempre envolta na natural inocência de seus sonhos, e de sua mãe, poderiam ser rotulados como tipos não convencionais. Estariam catalogados como fracassados, segundo o surrado e simplista postulado, tão valorizado pela tradicional sociedade americana e enunciado pelo pai, postulante a guru de auto-ajuda: o mundo está dividido entre "winers" e "losers". Paradoxalmente, caso o princípio pudesse ser aplicado com precisão matemática, ele próprio estaria fadado a sucumbir dentro desse determinismo, pois seus esforços para publicar a sua tese são em vão e as dificuldades financeiras grandes. Na verdade, a sua meta é alçar a sua família à suposta perfeição e felicidade do "american way of life", mesmo que essa vontade invariavelmente não logre êxito. O tio, suicida frustrado e especialista em Proust, desponta como a consciência crítica da família, tendo a função de servir como a antítese do pai obcecado por um lugar no sonho americando. A trupe é completada pelo irmão que fez voto de silêncio e pelo avô junkie. Os persongens são encarnados de forma espetacular por todos os atores e esse é um dos méritos do filme ao lado também das belas tomadas de câmera.
Por uma série de circunstâncias, todos repentinamente vêem-se dentro de uma Kombi amarela para viajar de Albuquerque até Redondo Beach, Califórnia, onde a garota tentará o tão sonhado título de miss. Então, a película revela-se como um "road movie", em que os "outsiders" protagonistas desfilando pela "highways" americanas em seu veículo nada moderno enfrentam decepções, percalços e situações bizarras. Há espaço para uma abordagem bem humorada dos fatos e determinadas passagens são bem engraçadas. No fundo de tudo, sempre paira a pergunta: o que faz uma pessoa vencedora ou perdedora? A pergunta é ainda mais pertinente quando já no concurso e para encanto de seus respectivos pais, garotinhas vestidas e pintadas como adultas, fazem poses, cantam e dançam de modo pré-fabricado objetivando a todo custo ganhar o título de miss. Essas não seriam crianças que agem de modo anti-natural, amputadas da pureza de suas infâncias? Onde residiria a vitória nesse fato? A resposta é dada em conjunto por Olive, que em comparação como as mini-mulheres, suas colegas de disputa, mostra-se como a criança que é, assim como por sua família, especialmente o pai, que ao final da jornada assume-se de fato como é, numa saudável anarquia, subvertendo os cânones da tão artificial competição.

Meninamá.com

Decepcionante o filme "Meninamá.com". Principalmente se considerarmos que foi alçado à categoria de grande obra por setores da mídia. O Globo, por exemplo, colocou o bonequinho aplaudindo de pé. Meus Deus...A crítica de cinema anda mesmo decadente... Aliás, será que ela existe ainda nos jornais? O que temos são meras resenhas, totalmente superficiais. São atualmente apenas mais um serviço para o leitor, de forma que ele escolha o filme cuja trama mais lhe agrade. O espaço para reflexão hoje em dia é muito pequeno. Compreensível: vivemos a época do efêmero, do "fast food". Parece que os cadernos culturais estão mais interessados em ceder espaço para reportagens que dêem mais "ibope". Na última sexta-feira fui surpreendido com uma reportagem de capa do Segundo Caderno sobre uma cantora de axé escrita por um repórter que viajou para realizá-la a convite da gravadora Universal, não por acaso contratante da mesma...
Deixando de lado as divagações, "Meninamá.com" reedita a dinâmica de filmes como "Louca Obsessão" e "A Janela Secreta" equipada, porém, com o adiconal da explosiva temática da pedofilia. Porém, se o diretor em algum momento pretendeu abordar esta questão de forma relevante falhou redondamente, já que ela fica perdida em meio ao suspense, estilo "gato e rato", já explorado de forma mais bem sucedida naquelas outras películas. O começo promissor, inclusive com a boa sacada de inversão dos papéis esperados dos personagens, quando a menina, aparentemente uma presa ingênua e inofensiva nas mãos de um suposto pedófilo, assume o papel de algoz (chapeuzinho vermelho trucidando o lobo mau), descamba numa extenuante sucessão de cenas repetitivas de embates e torturas e situações inverossímeis. Não fosse o válido questionamento das aparências (atrás de uma aparência frágil e inocente, a menina na verdade é esperta, manipuladora, sádica, má) e as satisfatórias interpretações dos atores, o filme seria ainda mais vazio e cansativo do que é.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Musica Popular Contemporanea de La Ciudad de Buenos Aires

Impressões sobre os dois volumes de "Musica Popular Contemporanea de La Ciudad de Buenos Aires" de Astor Piazzolla e seu Conjunto 9, lançados em 1971 e 1972, e reeditados recentemente. Depois do impacto, melhor tentar resumir em poucas palavras....

Música contemporânea e tradicional
Música de raiz e de vanguarda
Música portenha e universal
Música popular e erudita
Música cerebral e visceral
Música melancólica e destemida
Música imortal de um imortal
Música para ver e ouvir
MÚSICA TOTAL.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias

Embora ambientado em 1970, durante o sanguinário governo do General Médici, "O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias", não tem como foco principal os confrontos entre militares e "subversivos". É certo que os pais do pré-adolescente Mauro estão envolvidos em movimentos contestatórios ao regime autoritário e, em razão disso, são obrigados a tirar "férias" compulsórias, sendo esse fato determinante para as situações que o garoto irá vivenciar. Porém, antes de tudo é um filme sobre a solidão (daí a recorrente analogia com a figura do goleiro) e a ansiosa expectativa do reencontro. Sobre a inserção repentina do protagonista num microcosmo social que lhe é estranho, a comunidade judaica do bairro paulista Bom Retiro, sem qualquer referência familiar, já que seus pais "viajaram" e seu avô está morto, e o seu processo de adaptação ao mesmo.
O estranhamento inicial da nova vida vai aos poucos sendo superado pela interação do protagonista com outros personagens repletos de humanidade os quais, pode-se dizer, passam a funcionar como sua família adotiva. A comunidade judaica acaba por revelar-se como um universo acolhedor, verdadeira muralha às atrocidades que acontecem "lá fora". O protagonista, judeu "não praticante", talvez devido a um provável ateísmo de seus pais marxistas, descobre suas origens. Apenas no final do filme as duas realidades irão intercomunicar-se.
Além de personagens cativantes e de uma abordagem reflexa dos Anos de Chumbo, o filme é interessante quando utiliza como pano de fundo a Copa do Mundo do México, introduzindo a coexistência de emoções contraditórias: num plano geral, o medo e a apreensão trazidos pelo aparato repressor militar e a euforia pelas espetaculares vitórias da seleção brasileira, e num aspecto particular, entre estas e a incerteza do garoto quanto ao retorno de seus pais.
O filme também tem um víes de crônica de passagem da infância para a adolescência , ao retratar o mundo juvenil, e mesmo de crônica de costumes, ao abordar as idiossincrasias da comunidade judaica e de seus componentes. Isso contribui para conferir-lhe leveza.
A única restrição que tenho é em relação à inverossimilhança do episódio crucial de início do filme quando o garoto é pura e simplesmente deixado por seus pais na porta da residência de seu avô.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Garimpando cd's

Acabo de ouvir o cd "Detroit" de Yussef Lateef (sax tenor e flauta). Um discaço!!! Foi gravado em 1969, e traz um jazz descomplicado, alinhado com o hard bop. Tem considerável influência de black music, muito "groove", percussão afro e até momentos lisérgicos. Parece que em alguns aspectos até antecipa o que Isaac Hayes e Curtis Mayfield viriam a fazer na década seguinte ("Blaxploitation"), em discos como "Shaft" e "Superfly", respectivamente. Até lirismo tem: a última faixa, a arrebatadora "That Lucky Old Sun".
E o que o título desse "post" tem a ver com o que disse acima? Comprei o disco, pelo equivalente a R$7,00, depois de achá-lo "perdido" em um prateleira. Não conhecia nada do artista, a não ser a capa do disco que já tinha visto em uma reportagem na qual Ed Motta elegeu-a como uma das mais interessantes de todos os tempos. Arrisquei e acertei... Lembro também de ter garimpado e comprado por preços ridículos outros álbuns sensacionais: "Entertainmente!", do Gang of Four e "Roseland NYC Live", do Portishead.

Orquestra Tipica Fernández Fierro

É um grupo formado por jovens músicos de Buenos Aires que busca promover a revitalização do tango. Acabei de ouvir, aliás por duas vezes seguidas, o terceiro disco deles intitulado "Mucha Mierda", inédito no Brasil, e que comprei por plagas portenhas. Excelente. Distante dos clichês que assolam o gênero e conduzem à sua estagnação e, ao mesmo tempo, respeitoso. O som é bastante orgânico e cortante. Os instrumentos duelam criando climas tensos e confrontadores. Aqui não há muito espaço para a faceta melancólica do tango. Muitas vezes parece que os integrantes utilizam-se de levadas próprias do rock, e mais do que isso parecem querer fundir a alma tangueira com a atitude roqueira. Introduzem concepções novas dentro de uma vertente distinta, e a meu ver mais interessante por estar menos explorada comercialmente, daquela adotada por artistas que promovem a mescla com elementos eletrônicos (samples, loops e batidas suaves), em movimento similar ao que aconteceu (e ainda acontece) com a MPB, mais especificamente a bossa nova (vide, por exemplo, Bebel Gilberto e Bossacucanova). Nessa linha recomendo os álbuns de Bajofondo Tango Club, Carlos Libedinsky e Otros Aires. Isso sem falar no europeu e internacionalmente conhecido Gotan Project.
É bom não esquecer também que acima de todos paira a figura inspiradora, e também renovadora no seu tempo, de "São" Astor Piazzolla, valendo lembrar que vários de seus discos foram reeditados na Argentina em edição crítica.

domingo, 19 de novembro de 2006

Revista Rolling Stone

Ótimo que a Rolling Stone esteja sendo publicada de novo por aqui depois de um hiato de mais de 30 anos. É a oportunidade de ler boas resenhas musicais e outras matérias sobre cultura pop, comportamento e até política. As críticas parecem bem equilibradas. E não há aquele tom quase débil mental e "pseudo jovem moderno" próprio de outras publicações e mídias do gênero. Espero que tenha vida longa.

Show do New Division

Uma noite pra guardar a de quinta-feira, dia 16... Foi um dos melhores shows do ano, o do New Order. No palco estavam figuras essenciais da história da música pop executando seus próprios clássicos e os do Joy Division... "Transmission", "She's Lost Control" e a soberba "Love Will Tear Us Apart". Soou bem a combinação das aparentemente díspares sonoridades das bandas. Foi a convivência da eletrônica, do tecnopop e dos climas mais descontraídos do New Order com a música atormentada, sombria e marcial do Joy division.
O destaque da banda pra mim é o Peter Hook, mesmo vestindo a indefectível camisa da seleção brasileira, como fazem 09 entre 10 popstars quando aportam por esses tristes trópicos. Pode não ser um virtuoso, mas toca baixo de um modo tão singular que é facilmente reconhecível. Criou uma bela marca registrada.
O único senão foi a qualidade do som, abafado e tosco. Ficou a dúvida se por causa da acústica do Vivo Rio ou pelo fato da banda ter vindo ao Brasil sem um técnico de som (como noticiado nos jornais).

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Travessuras da Menina Má

Acabei de ler na semana passada. No geral, é bom entretenimento. É um livro que "pega". Apesar de ser uma obra de Vargas Llosa com pretensões artísticas mais modestas - e talvez por isso - a leitura é agradável e fluida. A preocupação aqui é somente a de contar uma história "redonda" com pleno domínio da técnica literária. Parece que deu certo, já que o livro tem boa vendagem em muitos países, inclusive no Brasil.
Uma das espertezas da obra é a utilização de variadas e atrativas "locações" em momentos históricos relevantes e bem demarcados como pano de fundo. Tal recurso está longe de ser original, mas seduz o leitor, servindo também para suavizar inclusive um certo cansaço gerado pelos reiterados encontros e desencontros amorosos dos personagens centrais. Estes tem a capacidade de irritar o leitor em várias passagens com a repetição de seus comportamentos ao longo de várias fases de suas vidas (seria intenção do autor?).
Conclusão 1: Sem dúvida, devido ao caráter um tanto quanto confuso de nossos heróis, é um romance "circular".
Conclusão 2: Existe o correspondente masculino à popular expressão "mulher de malandro", e atende pelo nome do protagonista , "Ricardo".

Shows Antológicos

Para estar na antologia um espetáculo tem que ser de tal forma impactante e sublime que deixe uma marca indelével na memória. Entre outros pensamentos mais ou menos cotados, deve retornar freqüentemente, sem cerimônia ou aviso prévio. Deve projetar-se além daqueles momentos originais e terrenos em que foi executado. Deve eternizar-se. Deve integrar o olimpo da subjetividade.
Não são necessários fogos de artifício, efeitos especiais de última geração, produções caras, discursos fáceis e coreografias banais. Coerência, comprometimento prioritário com a arte, manifestações honestas, despojamento, emoção em estado bruto são os elementos essenciais para que a antologia seja alcançada. Nesses casos, o arrebatamento e a até a epifania serão constantes.
Assisti a um grande número de shows, muitos corretos, divertidos, bons ou ótimos. Os antológicos foram poucos. Compreensível: a antologia é uma exceção. E é bom que assim seja.
Sou sempre visitado pelos espectros dos shows de Neil Young, Nirvana, Wilco, Arcade Fire, R.E.M, Kraftwerk... Qual será o próximo?

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

O porquê de ficar atento à ferrugem

A ferrugem é o cancro incessante que estimula a renovação. Uma vez parado você será inclementemente engolido por ela. Essa é a regra enunciada com acuidade pelo mestre Neil Young, não por acaso um exemplo de integridade artística. Aplica-se com exatidão às diversas formas de expressão cultural. É a assertiva básica e ameaçadora que deveria nortear qualquer processo criativo.
Infelizmente, muitos ignoram esse postulado básico, pois não tem qualquer comprometimento artístico. São gestados nos laboratórios das grandes corporações associadas com a mídia de massa tradicional. Não se propõem a um mínimo de esforço criativo, mesmo porque invariavelmente não têm um pingo de talento. Fogem do risco em busca do sucesso fácil. Fórmulas baratas são criadas, exploradas, exauridas e recriadas com uma nova roupagem igualmente ordinária. Outros, que a princípio apresentavam-se como renovadores, entregam-se à estagnação, arriscando muito pouco, ou nada. Nesses casos pode até ser que milhões em dinheiro sejam acumulados, o que poderia em muito compensar esse tipo de empreitada. Mas, por outro lado, às vezes nem percebem, ou percebem, e tem crises existenciais, que estão corroídos. É a ferrugem.
É certo que existe atualmente pouco espaço para criação de algo genuinamente novo, seja na música, no cinema, nas artes plásticas, na literatura, na cultura em geral. Temos a impressão de que tudo já foi explorado e inventado. Mas é fato que muitos artistas se empenham em gerar algo realmente criativo, intrigante e instigante. Podem até errar a mão. Correm riscos. Mas dignificam o que fazem. Trabalham, via de regra, à sombra da mídia massiva e comprometida. A questão é que esta não é mais tão importante hoje em dia. Tvs, rádios e jornais tradicionais, muitas vezes atrelados a interesses inconfessáveis, já não acrescentam muito...Os consumidores de cultura tem hoje outra ferramenta essencial de informação e pesquisa. A Internet. Basta que não sejamos acomodados e não recebamos passivamente informações. Uma simples navegação pode revelar artistas interessantíssimos. Há novidade, há criatividade longe dos refletores. E isso felizmente numa velocidade diretamente proporcional à ferrugem que consome as contrafações que campeiam por aí.